O consumo de ultraprocessados pelos brasileiros dobrou desde os anos 1980, atingindo 23% das calorias diárias e gerando mais de R$ 10 bilhões em custos anuais à saúde e economia do país. A questão, que pode evitar 57 mil mortes, é tema de debate intenso, com a reforma tributária de dezembro de 2023 no centro da discussão. O Resumo explica e descomplica para você.
O Aumento Alarmante do Consumo e Seus Riscos
O consumo de ultraprocessados saltou de 10% para 23% das calorias ingeridas no Brasil desde os anos 1980.
Dados internacionais foram publicados na revista científica The Lancet por mais de 40 pesquisadores do mundo todo, liderados por cientistas da Universidade de São Paulo (USP).
O conceito de ultraprocessados foi criado em 2009 na USP pelo pesquisador Carlos Monteiro, do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens).
A preocupação inicial de Monteiro era o aumento de obesidade, sobrepeso e doenças crônicas associadas ao consumo de alimentos com alto nível de processamento.
O que isso muda na prática: O Brasil enfrenta uma crise de saúde pública impulsionada pela dieta, com impactos diretos na qualidade de vida e na expectativa de vida da população. Entender o que são ultraprocessados é o primeiro passo para escolhas mais saudáveis.
Classificação NOVA e o Fim do "Defeito de Força de Vontade"
A equipe de Carlos Monteiro desenvolveu a classificação NOVA, que organiza os alimentos em quatro grupos:
– Alimentos in natura ou minimamente processados, como frutas, arroz ensacado, feijão ensacado.
– Ingredientes culinários processados, como azeite, manteiga, sal.
– Alimentos processados, a exemplo de milho em lata, sardinha em lata, pão de padaria.
– Alimentos e bebidas ultraprocessados, como bolachas recheadas, achocolatados de caixinha, refrigerantes e bebidas açucaradas.
De acordo com Carlos Monteiro, o aumento de obesidade não se deve a uma “epidemia de falta de força de vontade”, mas sim a um “sistema alimentar hoje muito não saudável” que estimula o consumo de ultraprocessados.
O que isso muda na prática: A compreensão de que o ambiente alimentar, e não apenas a culpa individual, direciona o consumo, abre caminho para políticas públicas eficazes e responsabiliza a indústria por produtos que afetam a saúde pública.
Custos Milionários e Vidas em Risco no Brasil
Um levantamento conduzido pela Fiocruz Brasília e pelo Nupens indica que o consumo de produtos ultraprocessados é responsável por um custo de mais de R$ 10 bilhões à saúde e à economia no Brasil.
Segundo o pesquisador Eduardo Nilson, da Fiocruz Brasília, estudos mostraram que até 57 mil mortes ao ano poderiam ser evitadas se o consumo de ultraprocessados fosse eliminado.
Estudos como esse são um alerta e preocupam cientistas brasileiros, organizações da sociedade civil e todos que defendem “comida de verdade” e reivindicam uma política fiscal mais agressiva para os produtos ultraprocessados.
O que isso muda na prática: O impacto no bolso do cidadão e nos cofres públicos é imenso, exigindo uma reavaliação urgente das prioridades de saúde e economia. Reduzir o consumo não é só questão de saúde individual, mas de sustentabilidade social e econômica.
Reforma Tributária Ignora Ultraprocessados, Apenas Bebidas Adoçadas Taxadas
A última reforma tributária foi publicada em dezembro de 2023, mas a transição começou neste ano de 2026 e vai até 2033.
Os produtos ultraprocessados ficaram de fora do imposto seletivo e não estarão sujeitos à cobrança criada para desestimular o consumo de itens nocivos à saúde ou ao meio ambiente.
Apenas as bebidas açucaradas, como os refrigerantes, receberam a taxa extra na reforma.
Kelly Santos, coordenadora-geral de Alimentação e Nutrição na Secretaria de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde, explica que, no novo desenho fiscal do Brasil, um conjunto importante de alimentos saudáveis terá alíquotas zero de imposto, e os alimentos considerados não saudáveis terão alíquotas de imposto maior.
Para as bebidas açucaradas, o país precisa ainda aprovar uma lei complementar para definir a alíquota de imposto que tornará o refrigerante mais caro, inspirada em medidas de outros países como México e Chile.
O que isso muda na prática: A ausência de taxação mais ampla para ultraprocessados na reforma tributária representa uma oportunidade perdida de proteger a saúde pública e aliviar o sistema de saúde. Sem impostos mais altos, o consumo desses produtos nocivos segue incentivado.
Outras Estratégias: Educação e Regulamentação da Publicidade
O programa Caminhos da Reportagem exibe o episódio “Ultraprocessados na Mesa dos Brasileiros” nesta segunda-feira (30), a partir das 23h, na TV Brasil.
O programa apresenta como e por que foi criado o conceito de ultraprocessado, explica como identificar se um produto é resultado de alto nível de processamento e discute as consequências sociais e para a saúde do consumo desses produtos.
Também serão apresentados exemplos de quem mudou hábitos alimentares e de uma escola em Águas Lindas de Goiás que investe em comida de verdade e em educação, como parte do Programa Nacional de Alimentação Escolar.
A coordenadora Kelly Santos, do Ministério da Saúde, destaca que outras medidas para tentar frear o consumo de ultraprocessados incluem educação e estratégias regulatórias de publicidade.
Paula Johns, diretora executiva da organização ACT Promoção da Saúde, lembra que impor limites na publicidade do cigarro foi uma estratégia bem-sucedida, citando a promoção de biscoitos recheados com alegações de vitaminas como um exemplo de marketing enganoso.
O que isso muda na prática: A educação e a regulação da publicidade são ferramentas poderosas para combater o marketing agressivo da indústria de ultraprocessados, ajudando os consumidores a fazerem escolhas mais informadas e protegendo especialmente crianças e adolescentes.