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Ultraprocessados: Custos de R$ 10 Bi e 57 Mil Mortes Evitáveis

Por Gabi Gaspar
30 de março de 2026
em Saúde
Ultraprocessados: Custos de R$ 10 Bi e 57 Mil Mortes Evitáveis

© Claiton Freitas

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O consumo de ultraprocessados pelos brasileiros dobrou desde os anos 1980, atingindo 23% das calorias diárias e gerando mais de R$ 10 bilhões em custos anuais à saúde e economia do país. A questão, que pode evitar 57 mil mortes, é tema de debate intenso, com a reforma tributária de dezembro de 2023 no centro da discussão. O Resumo explica e descomplica para você.

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O consumo de ultraprocessados saltou de 10% para 23% das calorias ingeridas no Brasil desde os anos 1980.

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Dados internacionais foram publicados na revista científica The Lancet por mais de 40 pesquisadores do mundo todo, liderados por cientistas da Universidade de São Paulo (USP).

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O conceito de ultraprocessados foi criado em 2009 na USP pelo pesquisador Carlos Monteiro, do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens).

A preocupação inicial de Monteiro era o aumento de obesidade, sobrepeso e doenças crônicas associadas ao consumo de alimentos com alto nível de processamento.

O que isso muda na prática: O Brasil enfrenta uma crise de saúde pública impulsionada pela dieta, com impactos diretos na qualidade de vida e na expectativa de vida da população. Entender o que são ultraprocessados é o primeiro passo para escolhas mais saudáveis.

Classificação NOVA e o Fim do "Defeito de Força de Vontade"

A equipe de Carlos Monteiro desenvolveu a classificação NOVA, que organiza os alimentos em quatro grupos:

– Alimentos in natura ou minimamente processados, como frutas, arroz ensacado, feijão ensacado.

– Ingredientes culinários processados, como azeite, manteiga, sal.

– Alimentos processados, a exemplo de milho em lata, sardinha em lata, pão de padaria.

– Alimentos e bebidas ultraprocessados, como bolachas recheadas, achocolatados de caixinha, refrigerantes e bebidas açucaradas.

De acordo com Carlos Monteiro, o aumento de obesidade não se deve a uma “epidemia de falta de força de vontade”, mas sim a um “sistema alimentar hoje muito não saudável” que estimula o consumo de ultraprocessados.

O que isso muda na prática: A compreensão de que o ambiente alimentar, e não apenas a culpa individual, direciona o consumo, abre caminho para políticas públicas eficazes e responsabiliza a indústria por produtos que afetam a saúde pública.

Custos Milionários e Vidas em Risco no Brasil

Um levantamento conduzido pela Fiocruz Brasília e pelo Nupens indica que o consumo de produtos ultraprocessados é responsável por um custo de mais de R$ 10 bilhões à saúde e à economia no Brasil.

Segundo o pesquisador Eduardo Nilson, da Fiocruz Brasília, estudos mostraram que até 57 mil mortes ao ano poderiam ser evitadas se o consumo de ultraprocessados fosse eliminado.

Estudos como esse são um alerta e preocupam cientistas brasileiros, organizações da sociedade civil e todos que defendem “comida de verdade” e reivindicam uma política fiscal mais agressiva para os produtos ultraprocessados.

O que isso muda na prática: O impacto no bolso do cidadão e nos cofres públicos é imenso, exigindo uma reavaliação urgente das prioridades de saúde e economia. Reduzir o consumo não é só questão de saúde individual, mas de sustentabilidade social e econômica.

Reforma Tributária Ignora Ultraprocessados, Apenas Bebidas Adoçadas Taxadas

A última reforma tributária foi publicada em dezembro de 2023, mas a transição começou neste ano de 2026 e vai até 2033.

Os produtos ultraprocessados ficaram de fora do imposto seletivo e não estarão sujeitos à cobrança criada para desestimular o consumo de itens nocivos à saúde ou ao meio ambiente.

Apenas as bebidas açucaradas, como os refrigerantes, receberam a taxa extra na reforma.

Kelly Santos, coordenadora-geral de Alimentação e Nutrição na Secretaria de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde, explica que, no novo desenho fiscal do Brasil, um conjunto importante de alimentos saudáveis terá alíquotas zero de imposto, e os alimentos considerados não saudáveis terão alíquotas de imposto maior.

Para as bebidas açucaradas, o país precisa ainda aprovar uma lei complementar para definir a alíquota de imposto que tornará o refrigerante mais caro, inspirada em medidas de outros países como México e Chile.

O que isso muda na prática: A ausência de taxação mais ampla para ultraprocessados na reforma tributária representa uma oportunidade perdida de proteger a saúde pública e aliviar o sistema de saúde. Sem impostos mais altos, o consumo desses produtos nocivos segue incentivado.

Outras Estratégias: Educação e Regulamentação da Publicidade

O programa Caminhos da Reportagem exibe o episódio “Ultraprocessados na Mesa dos Brasileiros” nesta segunda-feira (30), a partir das 23h, na TV Brasil.

O programa apresenta como e por que foi criado o conceito de ultraprocessado, explica como identificar se um produto é resultado de alto nível de processamento e discute as consequências sociais e para a saúde do consumo desses produtos.

Também serão apresentados exemplos de quem mudou hábitos alimentares e de uma escola em Águas Lindas de Goiás que investe em comida de verdade e em educação, como parte do Programa Nacional de Alimentação Escolar.

A coordenadora Kelly Santos, do Ministério da Saúde, destaca que outras medidas para tentar frear o consumo de ultraprocessados incluem educação e estratégias regulatórias de publicidade.

Paula Johns, diretora executiva da organização ACT Promoção da Saúde, lembra que impor limites na publicidade do cigarro foi uma estratégia bem-sucedida, citando a promoção de biscoitos recheados com alegações de vitaminas como um exemplo de marketing enganoso.

O que isso muda na prática: A educação e a regulação da publicidade são ferramentas poderosas para combater o marketing agressivo da indústria de ultraprocessados, ajudando os consumidores a fazerem escolhas mais informadas e protegendo especialmente crianças e adolescentes.

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