Há cinco anos, o cantor cearense Victor Custódio Gomes, conhecido artisticamente como Vittim, entrou no universo das apostas esportivas acreditando que poderia ganhar dinheiro. No início, as vitórias pareciam confirmar essa ideia. Mas, aos poucos, o jogo deixou de ser diversão e passou a controlar sua rotina.
Hoje, aos 23 anos, ele afirma ter perdido cerca de R$ 800 mil, vendido equipamentos de trabalho, comprometido o pagamento de músicos da própria banda e abalado relações familiares por causa da dependência.
O relato chamou atenção nas redes sociais, mas vai além da história de um artista. Especialistas alertam que o vício em apostas — conhecido como ludopatia ou transtorno do jogo — é reconhecido como um problema de saúde mental e pode atingir pessoas de qualquer idade ou profissão.
O caso ganha ainda mais relevância em um momento em que o governo federal endureceu as regras para a publicidade das chamadas bets, tornando obrigatórios avisos sobre o risco de dependência e proibindo campanhas que apresentem apostas como forma de ganhar dinheiro.
Como começou o vício
Segundo o cantor, tudo começou em casas de apostas presenciais. Com a popularização das plataformas digitais, apostar ficou ainda mais fácil.
“O lucro dos meus shows eu pegava e já gastava. Terminava meu show e ia jogar”, contou.
Ele disse que, no início, as vitórias davam a sensação de que era possível viver das apostas.
“Você ganha muito no começo. Mas depois, quando começa a perder, perde tudo de uma vez.”
Esse comportamento é comum entre pessoas que desenvolvem dependência, explicam especialistas.

O que é ludopatia?
A ludopatia é um transtorno caracterizado pela perda de controle sobre o hábito de jogar. Ela está incluída na Classificação Internacional de Doenças (CID-11) da Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno relacionado a comportamentos aditivos.
Segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), a pessoa passa a apostar repetidamente, mesmo diante de prejuízos financeiros, profissionais ou familiares.
O problema não está apenas no dinheiro perdido, mas na incapacidade de interromper o comportamento.
Por que apostar pode se tornar um vício?
Especialistas explicam que as apostas ativam áreas do cérebro ligadas à recompensa.
Cada vitória libera dopamina, neurotransmissor associado à sensação de prazer.
O problema é que o cérebro passa a buscar essa sensação repetidamente.
Quando começam as perdas, muitas pessoas acreditam que “a próxima aposta” irá recuperar todo o dinheiro perdido.
Esse ciclo costuma alimentar ainda mais o comportamento compulsivo.
Os sinais que muita gente ignora
Os primeiros sintomas nem sempre são percebidos.
Entre os principais sinais de alerta estão:
- apostar valores cada vez maiores;
- gastar dinheiro destinado a contas e despesas básicas;
- esconder apostas da família;
- mentir sobre perdas financeiras;
- pedir dinheiro emprestado para continuar jogando;
- vender bens pessoais;
- acreditar que a próxima aposta resolverá os prejuízos anteriores;
- sentir ansiedade ou irritação quando não consegue apostar.
Segundo especialistas, reconhecer esses sinais precocemente aumenta as chances de recuperação.
Quando o jogo começa a destruir a vida
No relato publicado nas redes sociais, Vittim contou que chegou a vender equipamentos profissionais por valores muito abaixo do mercado apenas para conseguir dinheiro para apostar.
Também revelou que utilizava recursos destinados ao pagamento dos músicos da banda e de compromissos profissionais.
Além das perdas financeiras, afirmou que o vício afetou amizades, relacionamentos e a convivência com familiares.
Um dos momentos decisivos aconteceu antes de uma viagem para uma turnê no Rio de Janeiro.
Mesmo com todo o dinheiro reservado para a viagem, decidiu apostar.
Perdeu praticamente tudo.
Foi nesse momento que percebeu que havia perdido o controle.
Como ele conseguiu interromper o ciclo
Após admitir o problema, o cantor contou que procurou ajuda psicológica e compartilhou a situação com familiares, amigos e integrantes da banda.
Um primo tomou uma medida prática: solicitou o bloqueio do CPF dele nas plataformas de apostas.
Hoje, ele também evita permanecer muito tempo utilizando o celular, justamente para reduzir o contato com aplicativos de apostas.
Existe uma forma de bloquear as apostas?
Sim.
O governo federal disponibiliza a autoexclusão centralizada para plataformas autorizadas.
Por meio desse sistema, qualquer cidadão pode solicitar voluntariamente o bloqueio do próprio acesso às casas de apostas legalizadas no país, por prazo determinado ou indeterminado.
A medida busca ajudar pessoas que reconhecem dificuldades para controlar o hábito de apostar.
Governo endurece regras para publicidade das bets
O relato do cantor ocorre poucos dias depois de o Ministério da Fazenda anunciar novas regras para a publicidade das apostas esportivas.
A partir de 17 de julho, todas as campanhas deverão trazer alertas obrigatórios, como:
- “Ministério da Fazenda adverte: apostar pode causar dependência”;
- “Ministério da Fazenda adverte: apostar faz você perder dinheiro”;
- “Ministério da Fazenda adverte: aposta não é investimento”.
Também ficam proibidas campanhas que apresentem apostas como forma de enriquecer, investimento financeiro ou caminho para o sucesso.
Influenciadores, comentaristas esportivos e especialistas também terão restrições para recomendar apostas específicas.
Segundo o governo, o objetivo é ampliar a proteção dos consumidores e reduzir os impactos da dependência.
Quando procurar ajuda?
Especialistas recomendam buscar apoio profissional quando a pessoa percebe que já não consegue controlar o impulso de apostar ou quando o comportamento começa a afetar sua vida financeira, familiar ou emocional.
O tratamento pode envolver acompanhamento psicológico, atendimento psiquiátrico e grupos de apoio, dependendo da gravidade de cada caso.
Reconhecer o problema é considerado o primeiro passo para interromper o ciclo da dependência.
O relato serve de alerta
A história de Vittim mostra que o vício em apostas não escolhe profissão, idade ou condição financeira.
O que começa como entretenimento pode, aos poucos, comprometer patrimônio, relacionamentos e saúde mental.
Em um cenário em que as apostas on-line se tornaram cada vez mais acessíveis, especialistas reforçam que informação, prevenção e busca por ajuda são fundamentais para evitar que uma diversão se transforme em um problema difícil de controlar.