Esta segunda-feira (25) marca o Dia da África, data em que o continente celebra seu desenvolvimento impulsionado por parcerias estratégicas, principalmente com a China. Essa aliança tem reconfigurado o cenário econômico global, buscando autonomia e um novo protagonismo africano. O Resumo explica e descomplica para você.
China consolida liderança comercial na África
O deslocamento do centro da economia global para a Ásia, liderado pela China, tem transformado os países africanos. O gigante asiático consolidou-se como o principal parceiro comercial do continente, impulsionando um intercâmbio econômico robusto e contínuo.
– A China é o principal parceiro comercial da África há 17 anos.
– O volume comercializado entre a China e a África atingiu US$ 295 bilhões em 2024, representando um aumento de 6% em relação ao ano anterior.
– A África possui uma população de 1,5 bilhão de habitantes, com 60% abaixo dos 25 anos, evidenciando seu grande potencial demográfico.
O que isso muda na prática: Essa parceria estratégica impulsiona o crescimento das economias africanas, gera oportunidades para a vasta população jovem do continente e fortalece a posição da África no comércio global, impactando diretamente o desenvolvimento socioeconômico e o “bolso” de seus cidadãos através da geração de empregos e renda.
Investimento chinês impulsiona infraestrutura essencial
A cooperação entre a China e a África vai além do comércio, focando intensamente na construção de infraestruturas vitais. Esses projetos abrangem transporte, energia e indústrias, com o objetivo de conectar regiões e otimizar a cadeia de valor no continente.
– Exemplo concreto é o Parque Industrial PK24, nos arredores de Abidjan, capital da Costa do Marfim, construído em parte pela China Light Industry Nanning Design Engineering.
– Esta unidade tem capacidade para processar 50 mil toneladas de cacau anualmente e armazenar 140 mil toneladas.
– Eden Pereira Lopes da Silva, pesquisador do Núcleo de Estudos Sobre África, Ásia e Relações Sul-Sul (NIEAAS) e historiador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explicou à Agência Brasil que os projetos chineses buscam conectar zonas importantes dentro do continente, integrando uma grande rede de corredores comerciais, especialmente marítimos e ferrovias renovadas.
O que isso muda na prática: A modernização da infraestrutura eleva a capacidade produtiva dos países africanos, reduz custos de logística e facilita o acesso a mercados, promovendo o avanço na cadeia de valor global. Isso representa um ganho direto para a economia local e para a “segurança” de abastecimento e desenvolvimento.
África lidera investimentos da Nova Rota da Seda
A Nova Rota da Seda, mega projeto liderado por Pequim para integrar o comércio com mais de 150 nações, tem encontrado na África seu principal destino de investimentos. Este foco estratégico sublinha a crescente importância do continente no cenário econômico global.
– No ano passado (2023), a África recebeu US$ 61,2 bilhões dos US$ 213 bilhões totais de investimentos chineses na Nova Rota da Seda, tornando-se o principal destino.
– Este valor representa um aumento de 283% em comparação com o ano anterior.
– Os países africanos com maior engajamento em projetos de construção foram Nigéria (US$ 24,6 bilhões) e República do Congo (US$ 23,1 bilhões).
– Os dados são do The Green Finance & Development Center, uma organização de pesquisas de Xangai.
O que isso muda na prática: A liderança da África nos investimentos da Nova Rota da Seda simboliza um novo patamar de parceria econômica, fomentando o desenvolvimento regional, a conectividade e a integração dos mercados africanos no fluxo comercial internacional, com impacto direto no “cenário político” global e na influência do continente.
Autonomia e a diplomacia econômica chinesa
A abordagem da China em suas relações com a África difere significativamente das potências ocidentais tradicionais. Essa estratégia, mais centrada na diplomacia e na economia, tem sido percebida como mais vantajosa pelas lideranças africanas, promovendo maior autonomia.
– Elga Lessa de Almeida, professora de relações internacionais da Universidade Federal da Bahia (UFBA), avalia que a China é um parceiro mais vantajoso que as potências europeias (colonizadoras) ou os Estados Unidos.
– A presença chinesa é descrita como mais diplomática e econômica, em contraste com uma presença mais militarmente imposta, como a dos EUA.
– Em entrevistas realizadas em Moçambique e Angola, a professora Elga Lessa constatou que interlocutores africanos afirmam que os chineses, diferentemente dos europeus, não ditam onde o dinheiro deve ser investido. São os africanos que expressam suas necessidades, e a China avalia a concessão do aporte financeiro, resultando em maior autonomia para as lideranças locais.
O que isso muda na prática: A maior autonomia na definição das prioridades de investimento fortalece a soberania dos países africanos e permite um desenvolvimento mais alinhado com suas necessidades reais, impactando positivamente a gestão pública e o “cenário político” interno e externo.
Rússia emerge como parceiro estratégico energético
Além da China, outros parceiros têm ganhado destaque no continente africano. A Rússia, em particular, tem ampliado sua influência, especialmente no setor de infraestrutura energética, superando em alguns aspectos a presença dos EUA.
– De acordo com o pesquisador Eden Pereira, a Rússia está à frente dos EUA em algumas relações com o continente africano.
– A África carece de infraestrutura energética, e tanto a China quanto a Rússia têm investido pesadamente no desenvolvimento de centrais elétricas e energia nuclear.
– A Rússia, recentemente, firmou acordos com a Etiópia para o desenvolvimento de uma usina nuclear.
O que isso muda na prática: A diversificação de parceiros estratégicos oferece mais opções para os países africanos no desenvolvimento de setores críticos como a energia. Isso pode garantir a “segurança” energética, impulsionar a industrialização e reduzir a dependência de um único player global.
O caso de Angola: da dependência à renegociação
A relação entre a China e Angola é um exemplo paradigmático da evolução das parcerias africanas. Após anos de guerra civil e a recusa de empréstimos por potências ocidentais, Angola recorreu à China, desenvolvendo uma relação que, embora inicial, demonstrou a capacidade de renegociação e busca por maior autonomia.
– A relação da China com Angola se desenvolveu por meio de empréstimos após a guerra civil (1975-2002), período subsequente à independência do país, em 1975.
– Segundo a professora Elga Lessa da UFBA, os países europeus não quiseram emprestar a Angola, que então recorreu à China, firmando um financiamento que seria pago por meio do petróleo angolano. Por anos, mais de 60% do total do petróleo de Angola foram destinados ao gigante asiático.
– Essa relação, inicialmente de dependência, evoluiu. Angola implementou um planejamento de pagamento, reduzindo significativamente sua dívida e desenvolvendo a consciência da necessidade de diversificar a economia para sair da dependência do petróleo.
O que isso muda na prática: O caso de Angola ilustra que, mesmo em cenários de dependência inicial, é possível renegociar termos e buscar maior autonomia econômica. Isso impacta o “bolso” do país ao diversificar receitas e o “cenário político” ao fortalecer a soberania nacional, servindo de modelo para outras nações africanas.