Em 3 de maio de 2026, o Brasil celebra o centenário de nascimento de Milton Santos, o geógrafo negro que revolucionou o estudo das desigualdades sociais e urbanas. Suas teorias, como a dos circuitos econômicos, continuam essenciais para entender a dinâmica de exclusão em cidades brasileiras e globais. O Resumo explica e descomplica para você.
Desvendando as Desigualdades Urbanas Brasileiras
O cenário de São Luís, no Maranhão, com o contraste entre grandes supermercados e feiras populares, exemplifica a aplicação da teoria dos circuitos urbanos formulada por Milton Santos. Livia Cangiano, pós-doutoranda na Universidade de São Paulo (USP) e professora colaboradora na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), estudou como diferentes dinâmicas de consumo revelam exclusão e desigualdade.
A teoria divide a economia urbana em dois circuitos distintos:
– O circuito superior, caracterizado por grandes empresas, alta tecnologia, capital e organização complexa.
– O circuito inferior, composto por pequenos comércios e serviços, com menor acesso a recursos, mas alta adaptabilidade às necessidades da população, especialmente em periferias.
Livia Cangiano destaca que, nesse circuito inferior, é possível comprar itens unitários, como um único ovo, diferentemente das grandes redes, que vendem apenas por dúzia. A atualidade da teoria transcende fronteiras, sendo aplicada em pesquisas sobre dinâmicas urbanas em Gana, na África, e em Londres e Paris, na Europa.
O que isso muda na prática: A compreensão desses circuitos revela como a estrutura econômica das cidades impacta diretamente o acesso a bens e serviços, moldando o consumo e a sobrevivência de milhões de brasileiros, especialmente nas periferias, onde as alternativas se adaptam à realidade de poucos recursos.
Milton Santos: Legado, Luta e Inspiração Contra o Racismo
Nascido em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas, Bahia, Milton Santos consolidou-se como um dos principais nomes da geografia mundial. Sua trajetória acadêmica e pessoal foi marcada por um profundo compromisso com a análise crítica da sociedade e a luta por justiça.
– Formação Acadêmica: Bacharelado na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e doutorado na Universidade de Strasbourg, França.
– Exílio e Ensino Internacional: Durante a ditadura militar no Brasil, lecionou em universidades na Europa, África e América Latina.
– Retorno ao Brasil: Consolidou sua produção intelectual como professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Universidade de São Paulo (USP).
Como intelectual negro, Milton Santos enfrentou o racismo estrutural na academia, construindo uma obra que redefiniu a compreensão do espaço geográfico ao articular economia, política e sociedade. Ele se tornou uma referência fundamental para outros intelectuais negros, como Catia Antonia da Silva, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
A professora Catia Antonia da Silva explica que, embora sua obra não tivesse a negritude como tema central, Milton Santos produziu uma teoria social crítica das desigualdades que se mostra valiosa para analisar as questões raciais, e ele nunca ignorou a necessidade de se posicionar publicamente.
O que isso muda na prática: O legado de Milton Santos mostra que o espaço geográfico não é neutro, mas construído por decisões políticas e econômicas. A distribuição desigual de infraestrutura, como saneamento, transporte ou acesso à internet, não é acidental; é resultado de escolhas que privilegiam certos grupos e territórios, afetando diretamente a qualidade de vida e o acesso a oportunidades de milhões de cidadãos.