Neste domingo (3), o Brasil celebra o centenário de Milton Santos (1926-2001), geógrafo cujas teorias desvendam as complexas desigualdades socioeconômicas e o racismo estrutural. Suas análises sobre o espaço geográfico e a urbanização permanecem cruciais para entender a realidade brasileira. O Resumo explica e descomplica para você.
A Teoria dos Circuitos: Entenda a Desigualdade Urbana
A relevância de Milton Santos é evidenciada em estudos recentes, como o de Livia Cangiano, pós-doutoranda na Universidade de São Paulo (USP) e professora colaboradora na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). Livia aplicou a teoria do geógrafo em São Luís (MA), analisando o contraste entre grandes redes de supermercados e pequenos mercadinhos em áreas de poucos recursos.
Milton Santos, em sua teoria formulada na década de 1970, dividiu a economia urbana em dois circuitos distintos:
– Circuito Superior: Concentrado nas grandes empresas, caracterizado por alto nível de tecnologia, capital e organização.
– Circuito Inferior: Formado por pequenos comércios e serviços, com menor acesso a recursos, mas altamente adaptável às necessidades da população.
Um exemplo prático dessa divisão é a compra de alimentos: enquanto grandes redes supermercadistas exigem a compra de uma dúzia de ovos, o circuito inferior permite adquirir apenas um ovo, adaptando-se à realidade de quem tem poucos recursos. A atualidade da teoria também é explorada em pesquisas fora do Brasil, como em Gana, Londres e Paris.
O que isso muda na prática: Essa teoria permite compreender como as cidades se organizam economicamente, revelando a exclusão de populações de baixa renda e a resiliência do comércio informal em atender suas necessidades específicas, impactando diretamente o consumo e acesso a bens essenciais.
A Trajetória de um Ícone: Vida e Legado de Milton Santos
Milton Santos nasceu em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas, na Bahia, e se consolidou como um dos principais nomes da geografia mundial. Ele concluiu o bacharelado na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e seu doutorado na Universidade de Strasbourg, na França.
Exilado durante a ditadura militar, lecionou em universidades na Europa, África e América Latina. Ao retornar ao Brasil, foi professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade de São Paulo (USP), locais onde sua produção intelectual alcançou grande projeção.
O que isso muda na prática: A vida e obra de Milton Santos, marcada por exílio e excelência acadêmica, estabelecem um legado intelectual profundo, influenciando gerações de pesquisadores e a forma como o Brasil compreende suas complexidades geográficas e sociais e a formação de seus intelectuais.
Racismo e Desigualdades: A Visão Crítica de Milton Santos
Sendo negro, Milton Santos enfrentou o racismo estrutural dentro da academia, tornando-se uma figura de inspiração e referência para outros intelectuais, como a geógrafa Catia Antonia da Silva, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
Apesar de sua obra não centralizar a negritude, ela produziu uma teoria social crítica das desigualdades que se mostra fundamental para analisar as questões raciais. O geógrafo destacava que o fato de ser professor universitário não o isentava de vivenciar o racismo e que negros precisavam de um esforço muito maior para legitimar seu trabalho, mas sem recorrer a qualquer vitimização.
Além da teoria dos circuitos urbanos, Milton Santos aprofundou a compreensão das desigualdades ao argumentar que o espaço nunca foi apenas o cenário onde a vida acontece, mas sim o resultado direto de decisões políticas e econômicas. Para ele, a distribuição desigual de infraestrutura nas cidades — como saneamento, transporte ou acesso à internet — não é um acaso, mas o fruto de escolhas que privilegiam determinados grupos e territórios.
O que isso muda na prática: As reflexões de Milton Santos sobre racismo e a natureza política do espaço urbano oferecem ferramentas essenciais para questionar e entender as raízes profundas das desigualdades que persistem no Brasil, incentivando um olhar crítico sobre a distribuição de recursos e oportunidades e seu impacto direto na vida do cidadão.