Nesta sexta-feira (3 de maio), o Brasil celebra 100 anos do nascimento de Milton Santos, geógrafo negro que revolucionou o entendimento das desigualdades socioeconômicas no país. Suas análises sobre a organização urbana e a exclusão social permanecem cruciais para compreender a realidade nacional. O Resumo explica e descomplica para você.
Na capital maranhense, São Luís, o contraste entre grandes supermercados e feiras populares, que atendem à população de menor renda, foi tema de estudo para Livia Cangiano. Pós-doutoranda da Universidade de São Paulo (USP) e professora da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), Cangiano aplicou a teoria de Milton Santos, formulada na década de 1970, para analisar as dinâmicas de exclusão e desigualdade.
Milton Santos desvenda a economia urbana e suas desigualdades
Milton Santos propôs a divisão da economia urbana em dois circuitos distintos, uma ferramenta essencial para compreender as diferenças sociais e econômicas nas cidades brasileiras e globais:
– Circuito superior: Concentrado em grandes empresas, caracterizado por alto nível de tecnologia, capital e organização.
– Circuito inferior: Formado por pequenos comércios e serviços, com menor acesso a recursos, mas altamente adaptável às necessidades da população.
Livia Cangiano ressalta a importância do circuito inferior para a periferia: “É muito difícil para as pessoas da periferia deixarem o espaço onde vivem e se deslocarem até o centro para consumir. As populações que vivem na periferia abrem seus próprios comércios, quitandas, mercadinhos, pequenas lojas”, afirma. Ela exemplifica que, nesse circuito, é possível comprar apenas um ovo, ao contrário das grandes redes que exigem a compra da dúzia.
A atualidade da teoria se estende a pesquisas internacionais, sendo aplicada para analisar dinâmicas urbanas em Gana, na África, e em cidades europeias como Londres e Paris.
O que isso muda na prática: Essa divisão teórica permite entender como diferentes grupos sociais acessam bens e serviços, revelando as estratégias de sobrevivência da população de baixa renda e a forma como a cidade se adapta às suas necessidades, impactando diretamente o bolso e o acesso a itens essenciais.
Conheça a trajetória de Milton Santos e sua luta contra o racismo
Nascido em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas, Bahia, Milton Santos consolidou-se como um dos maiores nomes da geografia mundial. Sua formação inclui o bacharelado na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e doutorado na Universidade de Strasbourg, França.
Durante a ditadura militar, foi exilado, lecionando em universidades na Europa, África e América Latina. Ao retornar ao Brasil, foi professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na Universidade de São Paulo (USP), onde produziu parte significativa de sua obra intelectual.
Como intelectual negro, Milton Santos enfrentou o racismo estrutural na academia, mas suas teorias críticas sobre as desigualdades sociais e territoriais se tornaram um pilar para análises raciais e sociais, inspirando figuras como Catia Antonia da Silva, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
Catia, uma mulher negra de 60 anos que ingressou na UFRJ na década de 80, destaca a influência de Santos: “O Milton foi muito importante para a minha formação, não só do ponto de vista cognitivo e técnico, mas também na dimensão humana”, diz. A professora explica que, embora sua obra não tivesse a negritude como tema central, suas teorias foram cruciais para analisar questões raciais, e ele nunca hesitou em se posicionar publicamente contra o racismo, defendendo que “os negros precisavam ter um esforço muito maior para o seu trabalho ter legitimidade”.
O que isso muda na prática: O legado de Milton Santos demonstra a importância de vozes negras no cenário acadêmico e social, oferecendo ferramentas para combater o racismo estrutural e promover uma sociedade mais justa. Seu exemplo inspira gerações a questionar as desigualdades e a lutar por reconhecimento e igualdade de oportunidades.
As teorias de Santos que explicam as desigualdades no cotidiano
Além da análise dos circuitos urbanos, Milton Santos aprofundou o entendimento sobre as desigualdades ao considerar o espaço geográfico não como um mero cenário, mas como um produto direto de decisões políticas e econômicas. Para ele, a distribuição de infraestrutura e serviços nas cidades reflete escolhas que privilegiam certos grupos e territórios.
– Distribuição desigual de infraestrutura: Saneamento básico, transporte público e acesso à internet são distribuídos de forma desigual, não por acaso, mas por escolhas políticas e econômicas.
– Privilégio de grupos e territórios: Essa distribuição favorece áreas valorizadas em detrimento de periferias sem serviços básicos, aprofundando a exclusão social.
O que isso muda na prática: Compreender que a falta de saneamento em seu bairro ou a dificuldade de acesso a transporte não é um mero problema local, mas resultado de decisões políticas e econômicas, empodera o cidadão. Isso permite questionar as políticas públicas e exigir investimentos que promovam uma distribuição mais equitativa dos recursos, impactando diretamente a qualidade de vida e o desenvolvimento local.