O documentário Cheiro de Diesel, que estreou nesta quinta-feira (2), expõe violações em operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) nas favelas do Rio de Janeiro. A produção detalha um cenário de terror vivido entre 2014 e 2018 durante megaeventos esportivos no país, reacendendo o debate sobre o papel das Forças Armadas na segurança pública. O Resumo explica e descomplica para você.
Entenda as Operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO)
As operações de Garantia da Lei e da Ordem são previstas na Constituição Federal para uso das Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica) em momentos de crise na segurança pública. São realizadas exclusivamente por ordem expressa da Presidência da República, consideradas uma última opção quando outras forças de segurança se mostram ineficazes.
O que isso muda na prática: Essas operações representam uma medida extrema, cujo uso recorrente, especialmente em comunidades vulneráveis, levanta questionamentos sobre a efetividade e os limites da atuação militar em contextos civis, impactando diretamente a segurança e os direitos dos cidadãos.
Operação São Francisco: Ocupação Militar no Complexo da Maré
Em 2014, dois meses antes da Copa do Mundo no Brasil, um decreto presidencial autorizou a instauração de uma GLO na capital fluminense. Batizada de Operação São Francisco, a intervenção levou 2,5 mil homens das Forças Armadas para 15 favelas do Complexo da Maré, na zona norte da cidade. A região foi selecionada devido à sua posição estratégica, abrangendo as linhas Amarela e Vermelha, a Avenida Brasil e o Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim (Galeão).
A Operação São Francisco teve duração oficial de 14 meses e gastos estimados em R$ 350 milhões aos cofres públicos. Conforme relatos da jornalista Gizele Martins, moradora da Maré e diretora do documentário, no primeiro dia da invasão do Exército, mais de 20 ou 30 crianças foram detidas, e casas e organizações sociais foram invadidas, gerando um cenário de terror e violações de direitos humanos.
O que isso muda na prática: A intervenção militar na Maré, apesar da promessa de segurança, gerou alto custo público e um ambiente de temor, com denúncias graves de violações. Esse modelo foi considerado um “laboratório” para futuras GLOs, afetando a confiança da população na atuação estatal e aprofundando a sensação de vulnerabilidade.
Histórico de GLOs e Casos Emblemáticos de Violações no Rio
Desde a Segunda Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Eco 1992), já ocorreram mais de 150 operações de GLO no Brasil, muitas delas em favelas do Rio de Janeiro. Mesmo com reações mistas à eficácia da Operação São Francisco, entre os anos de 2016 e 2018 foram decretadas outras três GLOs no estado do Rio, incluindo uma focada nas Olimpíadas de 2016 e a intervenção federal militar de 2018. O nome escolhido para interventor em 2018 foi o general Walter Braga Netto, que viria a ser ex-ministro da Defesa no governo Bolsonaro (2021-2022).
Casos de Violações Destacados no Documentário
Vitor Santiago, morador da Maré, foi alvejado em fevereiro de 2015 por dois tiros de fuzil disparados por um cabo do Exército. Vitor ficou em coma por 98 dias, teve uma das pernas amputadas e ficou paraplégico. O cabo foi absolvido na Justiça Militar.
Em novembro de 2017, soldados do Exército assassinaram oito jovens no que ficou conhecido como Chacina do Salgueiro. Este caso ocorreu após o então presidente Michel Temer ter sancionado a Lei nº 13491, que transferiu a investigação de crimes cometidos pelas Forças Armadas contra civis, inclusive homicídios, para a Justiça Militar.
Outro caso retratado no filme foi a tortura de 11 jovens, presos numa megaoperação das Forças Armadas no Complexo da Penha em 2018. Eles foram torturados na mata da Penha e dentro do quartel da 1ª Divisão do Exército, em um episódio conhecido como Sala Vermelha.
O que isso muda na prática: A recorrência das GLOs e a transferência de casos para a Justiça Militar criam um ambiente de impunidade e aprofundam a insegurança jurídica para os cidadãos. As violações narradas pelo documentário, com casos como o de Vitor Santiago e a Chacina do Salgueiro, expõem o impacto direto e devastador dessas operações nas vidas dos moradores e na percepção da justiça.
Cheiro de Diesel: Uma Análise Crítica sobre as GLOs
O documentário Cheiro de Diesel, dirigido pelas jornalistas Natasha Neri e Gizele Martins, tem como centro da narrativa o relato de moradores que vivenciaram esses períodos e seus desdobramentos. Natasha Neri explica que o contexto político é um fator determinante, com GLOs sendo decretadas por razões políticas e em grandes eventos para “passar uma suposta sensação de segurança” à população, algo que “não se concretiza com o uso de tanques e anfíbios nas portas das casas de milhares de moradores de favelas”.
Neri explica que um dos propósitos do documentário é mostrar a inconstitucionalidade do uso da Justiça Militar em crimes cometidos contra civis.
O que isso muda na prática: O documentário oferece uma perspectiva crucial dos moradores, expondo a realidade contrastante entre a narrativa oficial de segurança e o terror vivido nas comunidades. Ele não apenas registra fatos, mas convoca à reflexão sobre a legalidade e a humanidade das operações militares em áreas urbanas densamente povoadas, buscando resgatar a memória e promover a justiça social.