A Prefeitura do Rio de Janeiro anunciou a expansão do Observatório do Calor, projeto pioneiro de monitoramento de temperaturas, para as favelas de Manguinhos e Salgueiro. A decisão surge após dados coletados entre setembro de 2025 e janeiro de 2026 no Complexo do Alemão revelarem uma disparidade térmica significativa, com um pico de 43,92ºC registrado em 26 de dezembro, superando em quase 10ºC a temperatura oficial da cidade. O Resumo explica e descomplica para você.
Entenda a disparidade do calor nas favelas do Rio
O Observatório do Calor, iniciativa da Prefeitura do Rio, realizou 710 aferições de temperatura no Complexo do Alemão. Os resultados evidenciam como a falta de árvores, moradias adensadas, ruas estreitas e pouca ventilação intensificam o calor em áreas de favela, criando “ilhas de calor” urbanas. Por exemplo, em 26 de dezembro, o Morro do Adeus, no Complexo do Alemão, registrou 43,92ºC, enquanto a temperatura máxima oficial da cidade, medida pelo Sistema Alerta Rio, foi de 34ºC.
O que isso muda na prática: Essa diferença térmica impacta diretamente a saúde e o bem-estar dos moradores das favelas, que enfrentam condições climáticas mais severas e têm menos acesso a recursos como ar condicionado, elevando a importância do planejamento urbano e da justiça climática.
Prefeitura amplia monitoramento para Manguinhos e Salgueiro
Diante das evidências do calor desigual, a prefeitura expande o projeto para mais duas comunidades estratégicas na capital fluminense:
– Manguinhos: localizada em área plana, próxima à movimentada Avenida Brasil, com alta densidade populacional e históricos baixos níveis de qualidade do ar.
– Salgueiro: situada nas franjas do Parque Nacional da Tijuca, apresentando particularidades de arborização e percepção do calor devido à sua proximidade com a natureza.
A secretária municipal do Ambiente e Clima, Tainá de Paula, destacou que a expansão permitirá entender melhor esses impactos de forma localizada e propor soluções específicas. A força de trabalho que fará as medições de temperatura será contratada na própria comunidade, garantindo engajamento local.
Parcerias e soluções para o clima urbano
O projeto conta com o apoio acadêmico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Pesquisadores, como a professora Giselle Arteiro da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, coletarão depoimentos dos moradores para compreender os efeitos do calor no dia a dia, fundamentando as intervenções futuras em um contexto de justiça climática.
As análises dos dados e dos relatos visam gerar recomendações para intervenções urbanísticas e ambientais, incluindo:
– Plantio de árvores em pontos estratégicos para sombreamento e redução de temperaturas.
– Criação de áreas de sombreamento e espaços mais permeáveis à água para combater o escoamento superficial.
– Melhor aproveitamento de áreas vazias, transformando-as em espaços de convivência mais frescos e verdes.
O que isso muda na prática: As intervenções planejadas buscam melhorar a qualidade do ar, reduzir o estresse térmico e criar ambientes mais saudáveis e resilientes, proporcionando benefícios diretos à saúde pública e à qualidade de vida dos moradores das favelas.
Comunidade na busca por soluções climáticas
No Morro do Salgueiro, a intenção é, além de medir o clima, exportar soluções de mobilização comunitária. Emerson Menezes, presidente do Instituto Sal-Laje, ressaltou a importância das características locais, como quintais produtivos e hortas, para a percepção do calor, diferenciando-a de favelas mais urbanizadas e menos arborizadas.
Emerson, que também integra o Coletivo de Erveiras e Erveiros do Salgueiro, destacou a importância de iniciativas locais como a manutenção de uma horta no morro e o apoio a moradores com mudas para seus quintais verdes, valorizando a agricultura familiar e a cultura local na adaptação climática.