Uma das marcas mais conhecidas do varejo brasileiro está passando por uma mudança de tamanho considerável. A Casas Bahia fechou 298 lojas em meio ao processo de reestruturação de suas operações. Paralelamente, cerca de 1,9 mil a 2 mil trabalhadores foram atingidos por uma rodada de demissões, segundo informações inicialmente apuradas pelo Valor Econômico e repercutidas por outros veículos.
Na quinta-feira (13), aproximadamente 600 funcionários foram desligados. Para sexta-feira (14), a previsão era de outros 1,3 mil a 1,4 mil desligamentos. Juntas, as duas rodadas representam cerca de 6,7% da força de trabalho da companhia. O número chama atenção, mas a história por trás dele é maior.
Os cortes acontecem enquanto o Grupo Casas Bahia tenta reorganizar uma operação pressionada por prejuízos, despesas financeiras elevadas e endividamento, ao mesmo tempo em que apresenta crescimento em algumas frentes do comércio eletrônico.
Por que a Casas Bahia está fechando tantas lojas?
O fechamento faz parte de uma estratégia de redução de despesas e reestruturação do negócio.
A companhia atravessa há alguns anos um processo de transformação que envolve revisão de lojas, estoques, rentabilidade, dívida e estratégia digital.
E os números mais recentes ajudam a entender a pressão.
No primeiro trimestre de 2026, o Grupo Casas Bahia registrou prejuízo líquido de R$ 1,064 bilhão. No mesmo período de 2025, a perda havia sido de R$ 408 milhões.
Ou seja: o prejuízo mais que dobrou.
Um dos principais pesos está no custo financeiro. O resultado financeiro líquido do primeiro trimestre ficou negativo em R$ 1,171 bilhão.
Apesar disso, existe uma aparente contradição nos resultados.
A receita líquida cresceu 6,1%, alcançando R$ 7,416 bilhões no primeiro trimestre. E as vendas online de produtos próprios avançaram 27,4% sobre o mesmo período de 2025 — o maior crescimento dessa operação digital em 19 trimestres.
Em outras palavras: a empresa consegue vender mais em determinadas áreas, mas ainda enfrenta uma estrutura financeira pesada o suficiente para mantê-la no prejuízo.
Então a Casas Bahia está quebrando?
Não é correto concluir isso apenas pelo fechamento das lojas e pelas demissões.
Uma empresa pode fechar unidades deficitárias, reduzir funcionários ou diminuir sua estrutura física justamente para tentar tornar a operação restante mais eficiente.
Mas também não significa que a situação financeira seja confortável.
A própria companhia vem passando por uma ampla reorganização financeira.
Em 2024, o Grupo Casas Bahia apresentou um plano de recuperação extrajudicial envolvendo aproximadamente R$ 4,08 bilhões em dívidas financeiras. Documentos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) registram que o plano abrangia debêntures e cédulas de crédito bancário da companhia.
Recuperação extrajudicial também não é sinônimo de falência. Trata-se de um mecanismo previsto em lei para renegociar determinadas dívidas com credores.
Portanto, o quadro é mais bem descrito como uma empresa em profunda reestruturação financeira e operacional.
Por que as lojas físicas estão no centro dessa mudança?
Existe outro elemento importante: a transformação do próprio varejo.
Comprar uma televisão, geladeira ou celular já não exige necessariamente entrar em uma grande loja física. Parte crescente desse consumo migrou para sites, aplicativos e marketplaces.
O desempenho recente do Grupo Casas Bahia mostra essa mudança.
No primeiro trimestre, as vendas online de produtos próprios cresceram 27,4%, impulsionadas também pela presença da companhia em grandes marketplaces.
Isso não significa que a Casas Bahia esteja abandonando as lojas físicas. O próprio CEO Renato Franklin já defendeu publicamente a importância desse canal na estratégia da companhia. O que está acontecendo é uma tentativa de ajustar quantas lojas fazem sentido, onde elas devem existir e quanto cada unidade precisa gerar de retorno.
Juros altos ajudam a explicar o problema
Existe ainda uma particularidade importante no negócio da Casas Bahia.
Boa parte dos produtos vendidos pela rede — móveis, eletrodomésticos, celulares e eletrônicos — tem valor elevado e costuma ser comprada parcelada ou financiada.
Por isso, empresas desse segmento são particularmente sensíveis ao crédito.
Quando os juros permanecem elevados, dois efeitos aparecem: o consumidor tende a pensar mais antes de assumir novas parcelas e as próprias empresas endividadas passam a gastar mais com despesas financeiras.
No caso do Grupo Casas Bahia, o impacto aparece claramente no balanço: somente o resultado financeiro líquido negativo chegou a R$ 1,171 bilhão no primeiro trimestre.
É justamente por isso que a trajetória da Selic, que recentemente caiu para 14% ao ano, passa a ser especialmente relevante para o varejo brasileiro nos próximos meses.
Sindicatos reagiram às demissões
O tamanho e a velocidade dos cortes também provocaram reação sindical.
O Sindicato dos Empregados no Comércio de Osasco e Região (Secor) afirmou ter recebido relatos de trabalhadores surpreendidos pelo fechamento de unidades.
Segundo a entidade, funcionários aguardavam informações sobre verbas rescisórias, liberação do FGTS, seguro-desemprego e outros direitos. O sindicato também orientou trabalhadores a não assinarem documentos sem orientação jurídica.
Neste sábado (15), o caso ganhou um novo capítulo: o Secor anunciou a preparação de ação coletiva contra as demissões, buscando, segundo a entidade, reintegração de trabalhadores e indenização por danos morais.
O que muda para quem é cliente da Casas Bahia?
Para o consumidor, o fechamento de uma unidade física não significa automaticamente o encerramento das operações da empresa.
A Casas Bahia continua operando por meio das unidades mantidas abertas e de seus canais digitais.
Quem possui compras em andamento, parcelas, carnês, garantias ou outras relações comerciais com a rede deve acompanhar os canais oficiais da companhia e as orientações específicas relacionadas à unidade onde realizou a compra.
O ponto principal é este: o fechamento de uma loja não extingue, por si só, as obrigações existentes entre empresa e consumidor.
O que observar daqui para frente
O fechamento de 298 lojas talvez seja a parte mais visível de uma transformação que acontece há mais tempo.
A pergunta decisiva agora será se uma estrutura menor, combinada ao crescimento do digital e à reorganização das dívidas, conseguirá finalmente fazer o Grupo Casas Bahia voltar a apresentar resultados sustentáveis.
O mercado também observa essa questão.
Na própria página de relações com investidores da companhia, projeções de diferentes instituições financeiras ainda mostram expectativas bastante distintas para o desempenho da empresa em 2026 e 2027.
A Casas Bahia, portanto, não está simplesmente fechando lojas.
Ela está tentando descobrir qual deve ser o tamanho — e o formato — de uma das maiores operações varejistas do país em um mercado muito diferente daquele que transformou a marca em um símbolo do comércio brasileiro.