O Brasil enfrenta um ‘vazio estratégico’ na gestão de seus minerais críticos, segundo especialistas, apesar de um robusto arcabouço legal. Com o Projeto de Lei nº 2.780/2024 em debate nesta terça-feira (5) na Câmara, o país busca definir seu papel em um cenário global de intensa disputa por esses recursos essenciais à tecnologia e transição energética. O Resumo explica e descomplica para você.
Especialista Alerta para Falta de Plano Nacional de Minerais
A ex-juíza federal Luciana Bauer, especialista em justiça e direito climático e fundadora do Instituto Jusclima, aponta que o Brasil possui os instrumentos jurídicos para controlar suas riquezas minerais, mas falha em convertê-los em desenvolvimento industrial. Ela classifica essa deficiência como um ‘vazio estratégico’ que ameaça a soberania nacional.
Esse cenário é crítico em um contexto global onde potências como China e Estados Unidos disputam o controle de jazidas de minerais essenciais para:
– Indústrias de tecnologia
– Setor automobilístico
– Defesa nacional
– Concretização da transição energética
O que isso muda na prática: A ausência de um plano estratégico de longo prazo impede o Brasil de aproveitar seu potencial geológico, mantendo o país vulnerável e dependente externamente em setores de alta tecnologia e segurança.
Constituição Garante Soberania, Mas Falta Estratégia Prática
Luciana Bauer ressalta que o ordenamento jurídico brasileiro, principalmente a Constituição Federal, já estabelece a soberania da União sobre o subsolo e as commodities minerais, permitindo sua exploração apenas com autorização e em benefício do interesse nacional.
A especialista argumenta que é preciso ‘densificar’ esses princípios constitucionais em estratégias claras de como usar todos os recursos minerais para beneficiar a população. Essa conclusão é baseada em um estudo que ela elaborou com o cientista político Pedro Costa, a pedido da Rede Soberania.
O que isso muda na prática: A posse dos recursos minerais, por si só, não garante vantagem estratégica. Sem um planejamento prático e de longo prazo, a riqueza do subsolo brasileiro não se traduz em desenvolvimento efetivo e sustentável para o país.
PL nº 2.780/2024 Busca Mudar Cenário com Política Nacional
As conclusões de Luciana e Costa subsidiaram recomendações apresentadas pela Rede Soberania ao deputado federal Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), relator do Projeto de Lei nº 2.780/2024. Este PL propõe a instituição da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.
O parecer sobre a proposta foi apresentado nesta segunda-feira (4) e a expectativa era de que o relatório fosse lido e votado em plenário ainda nesta terça-feira (5).
Segundo o relator, o parecer considera sugestões de entidades, órgãos e especialistas do setor, buscando garantir que o Brasil utilize suas reservas de minerais estratégicos para:
– Desenvolver uma cadeia industrial interna
– Gerar produtos com valor agregado
O deputado Arnaldo Jardim enfatiza: ‘Não é apenas sobre extrair recursos. É sobre decidir qual papel o Brasil quer ocupar nessa nova economia: ser fornecedor de matéria-prima ou protagonista na geração de valor, tecnologia e desenvolvimento’.
Para Luciana Bauer, o PL, embora positivo para a fase atual dos debates, representa um ‘marco regulatório mínimo’ que precisará de mais discussões e aperfeiçoamentos no Senado, para onde seguirá após a aprovação na Câmara dos Deputados.
Rede Soberania Propõe Modelo Híbrido de Gestão Mineral
As propostas da Rede Soberania, elaboradas a partir do estudo de Luciana e Costa, reforçam a importância da soberania nacional, da proteção ambiental e do regime democrático brasileiro.
A entidade defende um ‘modelo híbrido de gestão’ para os recursos minerais estratégicos, onde o controle das cadeias de valor (refino, processamento e aplicação tecnológica) é o elemento decisivo, e não apenas a posse dos recursos.
Luciana explica que o modelo híbrido:
– Não exige a criação de uma empresa estatal com monopólio, como a Petrobras.
– Permite a atuação de atores privados, coordenados e regulados pelo Estado.
Esse modelo, citado como semelhante ao chinês, busca conciliar coordenação e controle regulatório para maximizar o benefício nacional.
O que isso muda na prática: Ao adotar um modelo que foca no controle das cadeias de valor, o Brasil pode transcender o papel de mero exportador de matéria-prima, desenvolvendo sua própria indústria, gerando empregos de alta qualificação e fortalecendo sua posição estratégica no cenário global.