Nesta sexta-feira (3 de maio), o Brasil celebra o centenário de Milton Santos, um dos maiores geógrafos do país. Suas teorias sobre a economia urbana e as desigualdades sociais permanecem cruciais para compreender a realidade brasileira e o impacto direto na vida do cidadão, especialmente nas periferias. O Resumo explica e descomplica para você.
A teoria dos circuitos urbanos ainda hoje impacta sua vida
A análise da geógrafa Livia Cangiano, pós-doutoranda na Universidade de São Paulo (USP) e professora colaboradora na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), revela como as ideias de Milton Santos, formuladas na década de 1970, são atuais ao explicar o contraste de consumo em cidades como São Luís, no Maranhão.
Milton Santos dividiu a economia urbana em dois circuitos:
– Circuito superior: concentrado nas grandes empresas, com alto nível de tecnologia, capital e organização.
– Circuito inferior: formado por pequenos comércios e serviços, com menor acesso a recursos, mas altamente adaptável às necessidades da população, como mercadinhos e quitandas.
Livia Cangiano exemplifica a distinção ao notar que, no circuito inferior, é possível comprar um ovo avulso, enquanto grandes redes supermercadistas exigem a compra da dúzia. Essa flexibilidade é vital para quem tem poucos recursos e vive na periferia.
O que isso muda na prática: Essa teoria explica como diferentes grupos sociais acessam bens e serviços, impactando diretamente o poder de compra e as opções de consumo no dia a dia, especialmente para as populações de baixa renda nas cidades.
Milton Santos enfrentou o racismo e inspirou a geografia brasileira
Nascido em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas, na Bahia, Milton Santos formou-se na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e obteve doutorado na Universidade de Strasbourg, na França. Exilado durante a ditadura militar, lecionou em diversos países antes de consolidar sua obra intelectual no Brasil, como professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade de São Paulo (USP).
Intelectual negro, Santos confrontou o racismo estrutural na academia e sua obra, que redefiniu a compreensão do espaço geográfico ao articular economia, política e sociedade, tornou-se referência para outros estudiosos negros, como Catia Antonia da Silva, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
Segundo Catia, apesar de não ter a negritude como tema central, a teoria crítica das desigualdades de Milton Santos auxilia na análise das questões raciais, e ele nunca hesitou em se posicionar contra o racismo que vivenciava.
O que isso muda na prática: O legado de Milton Santos oferece uma lente para entender que as desigualdades são intrínsecas à estrutura social brasileira, incluindo o racismo, e inspira a busca por uma sociedade mais justa.
Entenda como o espaço geográfico reflete desigualdades sociais
Além da teoria dos circuitos urbanos, Milton Santos aprofundou a compreensão das desigualdades ao argumentar que o espaço geográfico não é um cenário neutro, mas o resultado direto de decisões políticas e econômicas. Isso significa que a distribuição desigual de infraestrutura nas cidades, como saneamento, transporte ou acesso à internet, não é acidental.
Essa disparidade é fruto de escolhas que privilegiam determinados grupos e territórios, perpetuando a exclusão de outros.
O que isso muda na prática: As ideias de Santos permitem ao leitor compreender que a falta de serviços básicos em uma periferia, por exemplo, não é uma falha, mas uma consequência direta de políticas que impactam diretamente a qualidade de vida e as oportunidades de milhões de brasileiros.