Um novo estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), divulgado na terça-feira, 31 de outubro de 2023, revela que a sobrecarga materna, preços acessíveis e laços afetivos são motores do consumo de alimentos ultraprocessados por crianças em áreas urbanas brasileiras. A pesquisa aponta um cenário preocupante para a saúde pública e o desenvolvimento infantil em comunidades de Belém (PA), Recife (PE) e Rio de Janeiro (RJ). O Resumo explica e descomplica para você.
Fatores sociais levam ultraprocessados à mesa das crianças
A pesquisa do Unicef entrevistou cerca de 600 famílias em três comunidades urbanas específicas: Guamá, em Belém (PA); Ibura, em Recife (PE); e Pavuna, no Rio de Janeiro (RJ). O objetivo foi identificar os fatores que influenciam as escolhas alimentares infantis.
Os dados mostram que, apesar de 84% dos entrevistados se preocuparem em oferecer alimentação saudável, em metade dos lares os ultraprocessados estavam presentes no lanche das crianças. Em um a cada quatro domicílios, esses produtos eram parte do café da manhã.
Entre os produtos ultraprocessados mais encontrados nas casas estavam iogurte com sabor, embutidos (como presunto), biscoito recheado, refrigerante e macarrão instantâneo.
Na prática, mesmo com a preocupação dos pais, a rotina e as condições econômicas acabam por priorizar produtos que, a longo prazo, comprometem a saúde das crianças e sobrecarregam o sistema de saúde.
Entenda o que são alimentos ultraprocessados e seus riscos
Os ultraprocessados são produtos alimentícios de origem industrial, criados a partir da mistura de ingredientes naturais com aditivos químicos, como corantes, aromatizantes e emulsificantes. Essa composição resulta em produtos de baixo custo, longa durabilidade e sabores intensos, que tendem a viciar o paladar.
Evidências científicas demonstram que o consumo frequente desses alimentos aumenta o risco de doenças como obesidade, diabetes, problemas cardíacos, depressão e diversos tipos de câncer. O impacto na saúde pública é significativo e crescente.
Sobrecarga materna afeta escolhas alimentares familiares
O estudo aponta a sobrecarga das mulheres como um fator crucial. Em 87% das famílias pesquisadas, as mães eram responsáveis por comprar e servir alimentos às crianças, e 82% delas também preparavam as refeições. Em contraste, apenas 40% dos pais compravam alimentos, 27% cozinhavam e 31% ofereciam a comida.
Stephanie Amaral, oficial de Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, ressalta que essa sobrecarga, aliada ao trabalho fora de casa, faz com que a praticidade dos ultraprocessados se torne um atrativo decisivo para muitas famílias. Ela afirma: ‘Muitas mães fazem isso sozinhas, além de trabalhar fora. É uma sobrecarga que acaba fazendo com que a praticidade dos alimentos ultraprocessados pese muito mais’.
Na prática, essa sobrecarga feminina se traduz em menos tempo para preparações complexas, empurrando as famílias para soluções rápidas e baratas, muitas vezes baseadas em ultraprocessados, com consequências diretas na nutrição infantil e na saúde de longo prazo.
Desconhecimento dos rótulos e ineficácia dos avisos
A pesquisa também revelou um grande desconhecimento sobre os produtos ultraprocessados. Muitos alimentos que se encaixam nesta categoria, como iogurtes com sabor e nuggets de frango fritos na airfryer, foram considerados saudáveis pela maioria dos entrevistados.
A nova rotulagem frontal dos produtos, que alerta para alta concentração de sódio, açúcar e gorduras saturadas, ainda não atinge seu objetivo plenamente. Cerca de 26% dos entrevistados não sabiam o que os avisos significam. Além disso, 55% nunca observam os alertas e 62% nunca deixaram de comprar um produto por causa deles.
O impacto no seu bolso e na sua saúde é direto: a falta de informação clara leva ao consumo de produtos que, por mais baratos que pareçam, podem gerar custos de saúde maiores no futuro, além de comprometer a qualidade de vida e o desenvolvimento infantil.
Preço acessível e componente afetivo influenciam o consumo
A percepção de preço é um fator crucial. A maioria das famílias (67%) considera sucos de caixinha, salgadinhos e refrigerantes baratos. Em contrapartida, legumes e verduras são vistos como caros por 68%, frutas por 76%, e carnes por 94% dos entrevistados.
As entrevistas aprofundadas com famílias identificaram um componente afetivo, como explica Stephanie Amaral: ‘Essas pessoas não tinham dinheiro para comprar os alimentos que elas queriam quando eram crianças, então agora elas se sentem felizes por poder comprar o que a criança quer comer. E aí esses alimentos ultraprocessados, ainda mais aqueles com desenhos e personagens, são associados a uma infância feliz’.
Na prática, a combinação de baixo custo e um valor afetivo distorcido perpetua o ciclo de consumo de ultraprocessados, dificultando a adesão a dietas mais saudáveis e acessíveis, com graves repercussões na segurança alimentar e nutricional das famílias.
Unicef recomenda ações para fortalecer a alimentação saudável
A oficial Stephanie Amaral destaca que os danos dos ultraprocessados são cumulativos e não imediatos, tornando o controle do consumo mais difícil. Contudo, ela enfatiza o papel essencial das escolas, que possuem a confiança das famílias para promover e oferecer alimentação saudável: ‘As famílias mostram uma confiança muito grande na alimentação escolar, o que mostra como as escolas são importantes em oferecer o alimento saudável, mas também em promover essa alimentação para as famílias’.
O estudo do Unicef apresenta recomendações claras para enfrentar o desafio dos ultraprocessados:
– Fortalecer a regulação de alimentos ultraprocessados, avançando na regulamentação da publicidade infantil, na tributação desses produtos e na promoção de ambientes escolares saudáveis, reduzindo a exposição e o consumo.
– Expandir o acesso a creches e escolas em tempo integral, garantindo a oferta de alimentação nutritiva e educação alimentar para crianças e suas famílias.
O impacto no cenário político demanda que órgãos públicos, como o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, e reguladores, atuem em conjunto para criar políticas eficazes que protejam a saúde das futuras gerações e garantam acesso a uma alimentação de qualidade para todos os brasileiros.