O endividamento das famílias brasileiras dispara, impulsionado por ofertas de crédito fácil e a “ansiedade de consumo”, revelou um relatório recente nesta sexta-feira (17 de maio). Especialistas alertam sobre o uso de parcelamentos e limites como complemento de renda, desorganizando as finanças de milhões. O Resumo explica e descomplica para você.
Crédito Diário Alavanca Dívidas Ocultas
A oferta de parcelar pequenas compras habituais, como no supermercado ou posto de gasolina, tem se tornado um gatilho para o endividamento. A socióloga Adriana Marcolino, diretora técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), observa que muitas pessoas usam o crediário para pagar contas do orçamento mensal, desvirtuando a função original do crédito.
O crédito deveria ser um recurso para financiar bens de consumo duráveis e de maior valor, e não um complemento à renda para despesas rotineiras e ordinárias.
O que isso muda na prática: Aceitar o parcelamento de despesas pequenas, mesmo sem juros, pode criar a ilusão de vantagem imediata. Na verdade, essa prática compromete seu orçamento futuro, desorganizando as contas e aumentando o risco de você perder o controle das suas finanças pessoais.
Ansiedade de Consumo Pressiona Orçamento Familiar
A facilidade de acesso ao crédito agrava a “ansiedade de consumo”, conforme alerta a economista Katherine Hennings, pesquisadora associada da Fundação Getulio Vargas (FGV) e analista da BRCG Consultoria. Ela explica que há um comportamento de tentar antecipar ao máximo o que se consegue consumir, impulsionado por estímulos da propaganda e influenciadores digitais, sem que as pessoas analisem os efeitos de longo prazo.
A consequência de não calcular os efeitos é se comprometer com mais do que se pode pagar, levando ao uso de formas de financiamento com os juros mais altos do mercado, como:
– Cheque especial
– Parcelamento direto na operadora de cartão de crédito
– Rotativo do cartão de crédito
O economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fabio Bentes, ressalta que o consumidor brasileiro tem o hábito de pesquisar o preço de um produto, mas não de verificar quanto vai pagar de juros ao tomar um financiamento.
O que isso muda na prática: É crucial analisar os juros e o custo total de qualquer parcelamento antes de assumir um compromisso financeiro. A falta desse cálculo pode levar a dívidas com taxas elevadíssimas, transformando pequenas compras em grandes problemas financeiros e comprometendo sua capacidade de pagamento.
Entenda Por Que o Limite do Cartão Não é Renda Extra
Um erro comum do consumidor brasileiro é raciocinar que o limite do cheque especial ou do cartão de crédito se soma à sua renda mensal. A economista Isabela Tavares, responsável pelo acompanhamento de crédito e endividamento da Consultoria Tendências, explica que essa percepção distorce a realidade financeira.
– O limite do cartão de crédito não deve ser encarado como uma renda extra.
– É preciso conseguir pagar a fatura do cartão com o salário que se recebe no final do mês.
– Quem ganha R$ 5 mil e tem um limite de cartão de R$ 5 mil não tem uma renda de R$ 10 mil.
O que isso muda na prática: Encarar o limite de crédito como uma extensão da renda é uma armadilha que leva ao descontrole financeiro e ao superendividamento. Você precisa se planejar para cobrir todas as despesas e parcelamentos com sua renda real, evitando um ciclo vicioso de dependência do crédito.
Educação Financeira e o Papel do Desenrola 2.0
Especialistas como Isabela Tavares, Fabio Bentes e Katherine Hennings defendem, unanimemente, a necessidade de maior educação financeira para a população tomar decisões conscientes sobre o que, quando e como gastar seus recursos.
O planejador financeiro Carlos Castro, criador da plataforma de educação financeira SuperRico e atuante na associação Planejar, desenvolveu uma cartilha e uma calculadora para auxiliar as pessoas a decidirem sobre o uso do programa Desenrola 2.0 e do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para refinanciamento de dívidas.
Castro categoriza o programa Desenrola como uma medida de emergência e de curto prazo. Ele enfatiza que a solução estrutural para o problema do endividamento no Brasil é evitar que o brasileiro volte a se endividar nos mesmos níveis alarmantes.
A inadimplência das famílias no Sistema Financeiro Nacional, conforme dados do Banco Central, alcançou o montante de R$ 238,5 bilhões em março, representando 5,3% do crédito total cedido no período.
O que isso muda na prática: Programas de renegociação como o Desenrola oferecem um alívio temporário, mas a chave para a estabilidade financeira duradoura é a educação. Compreender e gerenciar seu dinheiro de forma consciente é essencial para evitar a recorrência de dívidas e fortalecer sua segurança econômica a longo prazo.