Muito antes da internet chegar às casas brasileiras como algo cotidiano, o país esteve perto de seguir um caminho completamente diferente. O Brasil quase criou sua própria internet, uma rede nacional de dados pensada para conectar universidades, centros de pesquisa e instituições públicas — de forma independente do modelo global que hoje domina o mundo.
Essa história é pouco conhecida, mas real. E ajuda a explicar decisões estratégicas que moldaram o futuro digital do país.
Quando a internet ainda não era “internet”
Nos anos 1970 e 1980, computadores eram grandes, caros e restritos a poucos lugares. Ainda assim, a troca de dados já era vista como algo estratégico, principalmente para ciência, tecnologia e soberania nacional.
Nesse contexto, o Brasil começou a desenvolver uma rede própria de comunicação digital, voltada inicialmente para a comunidade acadêmica e científica. A ideia não era criar algo comercial, mas garantir autonomia tecnológica em um mundo que começava a se digitalizar.
A rede que quase virou a “internet brasileira”
Esse projeto ganhou forma com a criação da Rede Nacional de Pesquisa (RNP), lançada oficialmente no fim dos anos 1980.
Na prática, a RNP:
- Conectava universidades e centros de pesquisa
- Permitia troca de dados e informações científicas
- Funcionava como uma espinha dorsal digital do país
- Era financiada e coordenada pelo Estado
Embora não fosse aberta ao público como a internet atual, o embrião estava ali: uma rede nacional, funcional e em expansão.
📺 Vídeo: como essa rede funcionava na prática
Para entender melhor como essa rede operava e por que ela foi tão importante naquele período, o vídeo abaixo ajuda a visualizar o que estava sendo construído no Brasil antes da internet comercial se popularizar.
Por que o projeto não virou uma internet nacional?
A grande virada aconteceu no início dos anos 1990.
Com a abertura econômica, a globalização acelerada e as reformas no setor de telecomunicações, o Brasil passou a adotar o modelo internacional de internet, baseado em padrões globais como o TCP/IP, já amplamente utilizado nos Estados Unidos e na Europa.
Além disso:
- A padronização global facilitava a integração internacional
- O custo de manter uma rede nacional exclusiva era alto
- O foco passou a ser acesso rápido ao que já existia
Dessa forma, o país optou por integrar-se à internet global, em vez de desenvolver um sistema próprio paralelo.
O que o Brasil perdeu — e o que ganhou
Ao abandonar a ideia de uma rede nacional independente, o Brasil ganhou:
- Acesso rápido à internet mundial
- Integração com mercados e informações globais
- Expansão acelerada do uso comercial e doméstico
Por outro lado, especialistas apontam que o país perdeu a chance de:
- Ter maior soberania digital
- Desenvolver tecnologias próprias em larga escala
- Reduzir dependência de infraestruturas externas
Não se trata de certo ou errado, mas de escolhas estratégicas feitas em um momento decisivo.
O que essa história ensina hoje
Décadas depois, o debate voltou à tona com outros nomes:
- Dependência de grandes empresas de tecnologia
- Controle e armazenamento de dados
- Infraestrutura digital crítica
A história da quase “internet brasileira” mostra que capacidade técnica nunca foi o problema. O desafio sempre esteve nas decisões políticas, econômicas e de longo prazo.