O setor financeiro brasileiro, vital para a economia, opera sob constante escrutínio e adaptação a novas regras e ciclos econômicos. Em um período marcado por ajustes regulatórios e um cenário de crédito mais desafiador, a performance de grandes instituições financeiras como o Banco do Brasil reflete diretamente essas dinâmicas. Compreender os balanços anuais, portanto, é essencial para qualquer cidadão que busca entender o pulso econômico do país e como as grandes corporações se posicionam. O Resumo explica e descomplica para você.
Os números da queda no lucro
O Banco do Brasil registrou um lucro líquido ajustado de R$ 20,685 bilhões em 2025, o que representa uma queda significativa de 45,4% em relação ao ano anterior. Esse resultado foi fortemente influenciado por dois fatores principais que reconfiguraram o cenário financeiro do banco:
– As novas regras contábeis, que alteraram a forma como as instituições financeiras reconhecem suas provisões e receitas.
– O aumento da inadimplência em diversas carteiras, que exigiu maiores reservas para cobrir possíveis calotes.
Apesar da queda anual, é importante notar que no último trimestre de 2025 (outubro a dezembro), o lucro foi de R$ 5,742 bilhões. Houve um recuo de 47,2% em comparação com o mesmo período de 2024, mas um crescimento de 51,7% em relação ao terceiro trimestre de 2025, demonstrando uma recuperação dentro do ano. O próprio banco destacou que, mesmo com as pressões da inadimplência, a geração de receitas está em ascensão, impulsionada pelo crédito a pessoas físicas e pelo Programa Crédito do Trabalhador. Segundo Tarciana Medeiros, presidente do Banco do Brasil, foram desembolsados R$ 13 bilhões no crédito do trabalhador, reforçando a expectativa de crescimento em linhas com melhor retorno ajustado ao risco.
Como as novas regras contábeis impactaram o balanço
Uma resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN), aprovada em 2021 e que entrou em vigor em janeiro de 2025, modificou profundamente a contabilidade das instituições financeiras. Essa mudança é crucial para entender a redução do lucro do Banco do Brasil:
– A resolução alterou o modelo de provisões, que são as reservas financeiras que os bancos destinam para cobrir possíveis calotes. Antes, o foco era na perda incorrida; agora, o modelo é de perda esperada, baseado em estimativas futuras.
– A mudança fez com que o banco deixasse de reconhecer cerca de R$ 1 bilhão em receitas de crédito, impactando diretamente o resultado final. Isso significa que, mesmo gerando receita, ela não pôde ser contabilizada da mesma forma devido à nova metodologia.
Aumento da inadimplência: um desafio crescente
O índice de inadimplência, que mede os atrasos em pagamentos por mais de 90 dias, foi outro fator de pressão significativa. Ele saltou de 3,16% em dezembro de 2024 para 5,17% no final de 2025. Esse aumento teve focos específicos:
– Agronegócio: Segmento onde o Banco do Brasil tem liderança na concessão de crédito. A inadimplência da carteira encerrou o ano em 6,09%, um aumento de 1,25 ponto percentual no último trimestre de 2025. Isso reflete dificuldades no setor, que impactam diretamente a saúde financeira do banco.
– Cartões de crédito e pessoas físicas: A inadimplência nessa carteira atingiu 6,56%, com elevação de 0,55 ponto percentual. Esse aumento pode indicar uma maior dificuldade das famílias em honrar seus compromissos, em parte devido a juros mais altos ou instabilidade econômica.
Crescimento do crédito em diferentes frentes
Mesmo em um cenário de aumento de juros e inadimplência, o Banco do Brasil expandiu sua carteira de crédito em 2025, demonstrando uma estratégia ativa no mercado. A carteira de crédito ampliada alcançou R$ 1,296 trilhão, um aumento de 2,5% no ano. Os destaques foram:
– Pessoa Física: A carteira somou R$ 356,96 bilhões, um crescimento de 7,6% em um ano. Houve um grande impulso com a nova modalidade de crédito consignado para trabalhadores de empresas privadas (CLT), com R$ 14,3 bilhões emprestados. Isso mostra a busca por segmentos com menor risco de calote, impactando o acesso a crédito para milhões de brasileiros.
– Pessoa Jurídica: Atingiu R$ 455,15 bilhões, com alta de 0,6% no ano. Enquanto a carteira para grandes empresas cresceu 4,3%, o crédito para micro, pequenas e médias empresas recuou 7,9%. Isso pode sinalizar um cenário mais desafiador para os pequenos e médios negócios, que são vitais para a geração de empregos.
– Agronegócios: A carteira registrou R$ 406,13 bilhões, com alta de 2,1% no ano. O banco desembolsou R$ 103,9 bilhões no Plano Safra 2025/2026, reforçando seu papel como principal financiador do setor. Este apoio é fundamental para a produção agrícola do país, apesar dos desafios de inadimplência específicos do setor.
– Carteira de Crédito Sustentável: Chegou a R$ 415,1 bilhões, um aumento de 7,3% em 12 meses, representando 32% do crédito total. Isso demonstra o compromisso crescente do banco com investimentos em atividades de impacto social e ambiental positivo, alinhando-se a tendências globais de ESG.
Receitas de serviços e despesas administrativas
As receitas de prestação de serviços do Banco do Brasil totalizaram R$ 34,813 bilhões em 2025, uma queda de 1,9% em relação ao ano anterior. Contudo, essa redução foi parcialmente compensada por bons desempenhos em algumas áreas:
– Crescimento nas receitas com administração de fundos (+13,5%).
– Aumento nas taxas de administração de consórcios (+19,3%).
– Boas rendas do mercado de capitais (+7,9%).
As despesas administrativas, por sua vez, somaram R$ 34,813 bilhões em 2025, um aumento de 5,1% em comparação a 2024. Este crescimento foi justificado pelo reajuste salarial da categoria e por investimentos estratégicos em tecnologia e cybersegurança, que visam modernizar as operações e garantir a segurança dos dados.
As projeções do BB para 2026
Para 2026, o Banco do Brasil projeta uma recuperação dos seus resultados após a queda de 2025. As estimativas indicam um otimismo cauteloso:
– Lucro líquido ajustado: Projeção entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões. Isso representa a expectativa de superação dos desafios atuais e um retorno à trajetória de crescimento.
– Crescimento da carteira de crédito: Espera-se um aumento de 0,5% a 4,5% na carteira total. Destaca-se a previsão de alta de 6% a 10% para pessoas físicas, enquanto agronegócio e empresas podem ter variações mais modestas, indicando a aposta em segmentos mais seguros.
– Receitas de prestação de serviços: Previsão de crescimento entre 2% e 6%, mostrando a aposta na diversificação das fontes de receita além do crédito tradicional.
– Despesas administrativas: Aumento projetado de 5% a 9%, refletindo a continuidade dos investimentos em estrutura e pessoal para suportar o crescimento e a modernização.
A performance de um gigante como o Banco do Brasil é um termômetro importante para a saúde econômica do país. A análise de seus resultados, que combinam desafios regulatórios e macroeconômicos com estratégias de crescimento em segmentos chave, oferece uma visão clara das tendências que moldarão o cenário financeiro nacional nos próximos anos. A capacidade de adaptação e a busca por novas fontes de receita serão cruciais para a instituição e, consequentemente, para o mercado como um todo.