A historiadora Silvana Santus lança nesta quinta-feira (19 de março) o livro “Sobre a vida delas”, obra que desvenda a crueldade da escravidão infantil no século 19, especialmente no Espírito Santo.
A pesquisa conecta esse passado doloroso aos desafios urgentes do racismo estrutural e da invisibilidade enfrentados pelas crianças negras no Brasil contemporâneo.
A pauta, de relevância nacional, levanta um debate crucial sobre justiça social e políticas públicas. O Resumo explica e descomplica para você.
Escravidão Infantil em Foco: Vozes do Passado Resgatam Lutas
Na segunda metade do século 19, duas meninas escravizadas, de 12 e 14 anos, no Espírito Santo, desafiaram o sistema ao recorrer à Justiça para denunciar abusos. Embora sem êxito, a ação demonstra a ousadia e as formas de resistência em um contexto de exploração extrema, tema central da nova obra.
Detalhes sobre a obra e o lançamento:
– Denúncias de abuso e violência por duas meninas escravizadas (12 e 14 anos) na segunda metade do século 19 no Espírito Santo, sem êxito judicial.
– Livro “Sobre a vida delas”, da historiadora Silvana Santus, será lançado em 19 de março no Museu Capixaba do Negro (Mucane), em Vitória/ES.
– Aborda o cotidiano e as lutas de crianças negras no período escravista, com recorte temporal de 1869 a anos posteriores a 1888.
– Evento contará com exposição de 14 fotos e gravuras do período (1870-1888), parte do acervo do Instituto Moreira Sales (IMS).
O que isso muda na prática: A obra permite uma compreensão mais profunda sobre as raízes históricas da desigualdade racial no país, mostrando como a infância negra foi historicamente privada de direitos e dignidade.
A Rotina Brutal da Criança Escravizada e a Lei de 1869
A historiadora Silvana Santus detalha que crianças escravizadas eram rotineiramente submetidas a condições de trabalho e vida desumanas, equivalentes às de adultos, evidenciando uma “não infância” marcada pela invisibilidade e exploração.
Dados sobre a exploração e a lei:
– Crianças eram comercializadas, vendidas, trocadas ou alugadas, muitas vezes por valor menor que adultos escravizados.
– Desempenhavam as mesmas tarefas de adultos no campo e dentro das casas.
– A Lei provincial nº 25, de 1869, destinava valor para libertar meninas de 5 a 10 anos sob condição de serem “educadas para causar menos problemas para a sociedade”.
– Essa lei teve alcance muito limitado, contemplando apenas 50 meninas, segundo a historiadora.
O que isso muda na prática: Esses dados históricos revelam a desvalorização da vida da criança negra e a ineficácia das poucas medidas “protetivas”, elucidando a base de um racismo institucional que ainda ressoa hoje na sociedade.
O Reflexo da Escravidão no Racismo Atual Contra Crianças Negras
A pesquisa da historiadora não se limita ao passado, mas busca estabelecer um diálogo com o presente, expondo como as heranças da escravidão ainda moldam a realidade de crianças negras no Brasil, com impactos diretos em sua segurança e bem-estar.
Conexões entre passado e presente:
– Um dos objetivos da pesquisa é contribuir para um debate mais amplo sobre os desafios das crianças negras no passado e no presente.
– É relembrado o caso de Miguel Santana da Silva, um menino negro de 5 anos que morreu em 2020 após cair do 9º andar de um edifício de luxo em Recife, deixado sozinho pela patroa de sua mãe.
– A historiadora reflete que o abandono de Miguel revela uma atitude desumana e a percepção de que a criança negra tem menos valor, um comportamento herdado do passado escravista.
O que isso muda na prática: A análise conecta diretamente o passado escravista ao racismo moderno, mostrando como a invisibilidade e a violência contra crianças negras persistem, afetando sua segurança e desenvolvimento.
Políticas Públicas e Educação: Caminhos para Combater o Racismo Estrutural
Silvana Santus defende uma ação mais assertiva do poder público e uma revisão profunda dos sistemas educacionais para transformar as estatísticas e garantir um futuro mais justo e equitativo para as crianças negras, impactando diretamente o cenário político e social do país.
Propostas e necessidades:
– A autora defende uma atuação mais eficiente do poder público em relação às crianças negras.
– É preciso voltar o olhar para o lugar da criança preta na sociedade, com proposições de políticas públicas mais justas e inclusivas.
– Necessidade de reformular os currículos escolares para combater a invisibilidade e a violência do racismo na primeira infância, especialmente no ambiente escolar.
O que isso muda na prática: O chamado por políticas públicas e reformas educacionais aponta para soluções concretas para o cenário político e social, visando um futuro onde a infância negra tenha seus direitos plenamente garantidos e protegidos contra o racismo.