Além do brilho e da euforia do carnaval carioca, a Sapucaí se prepara para receber uma narrativa profunda e transformadora. A Grande Rio, uma das escolas mais renomadas, mergulha nas raízes culturais de Pernambuco ao escolher o Manguebeat como enredo, um movimento que, nos anos 1990, agitou a cena musical e social do Recife com sua crítica e criatividade. O Resumo explica e descomplica para você.
O legado do Manguebeat: Da lama à cultura
Nascido nos manguezais do Rio Capibaribe, em Recife, o Manguebeat surgiu nos anos 1990 como uma explosão cultural. Músicos como Chico Science e as bandas Nação Zumbi e Mundo Livre S/A fundiram o peso do heavy metal e a cadência do reggae com a riqueza dos ritmos regionais, como maracatu, coco e ciranda. Essa mistura inusitada serviu como metáfora da resistência e criatividade das periferias, distantes dos grandes centros de poder cultural.
O movimento foi eternizado pelo manifesto ‘Caranguejos com cérebro’, de 1992, assinado pelo jornalista Fred Zero Quatro. O texto questionava a apatia cultural da cidade e propunha ‘injetar energia na lama’ para recarregar as veias do Recife, simbolizando a busca por inovação e vitalidade em meio às adversidades sociais.
A conexão entre manguezais: Caxias e Recife na avenida
A escolha do Manguebeat pela Grande Rio, que disputará o bicampeonato, não é aleatória. O carnavalesco Antônio Gonzaga, influenciado por seu pai, um apaixonado pelo movimento, percebeu uma profunda confluência entre a história do Manguebeat e a realidade da Baixada Fluminense. A própria cidade de Duque de Caxias, sede da escola, é cercada por manguezais, estabelecendo um paralelo geográfico e social com Recife.
Essa conexão transcende a paisagem. Tanto o manguezal do Capibaribe quanto o Jardim Gramacho, em Caxias, representam periferias com suas próprias lutas e transformações sociais, que ressoam na narrativa do enredo. Para a Grande Rio, levar o Manguebeat à Sapucaí é uma forma de celebrar essa resiliência e a capacidade de fazer arte a partir das margens, unindo a lama do Capibaribe à do Jardim Gramacho em um só discurso artístico.
O ritmo da identidade: A música do enredo na Sapucaí
O enredo ‘A Nação do Mangue’ promete um espetáculo visual e sonoro vibrante. Com seis setores, cinco carros alegóricos e três tripés, a escola apresentará a biodiversidade do manguezal e a cultura pernambucana em fantasias e alegorias ricamente detalhadas. Personalidades recifenses já confirmaram presença, colorindo ainda mais a avenida.
A bateria de Mestre Fafá, com seus 270 ritmistas, será o coração pulsante dessa homenagem. Os arranjos musicais serão profundamente inspirados nas inovações do Manguebeat, incorporando referências ao frevo, ao maracatu e às ousadias rítmicas de Chico Science. A própria fantasia da bateria representará o bloco afro Lamento Negro, co-fundado por Chico Science, reforçando a autenticidade e a conexão direta com as raízes do movimento.
A letra do samba-enredo capta essa identificação cultural, com versos como ‘Eu também sou caranguejo à beira do igarapé / Gabiru trabalha cedo, cata o lixo da maré’, expressando a união de experiências entre quem vive nos mangues de Recife e nas margens sociais da Baixada Fluminense. É um convite à reflexão sobre a riqueza que emerge das comunidades periféricas e sua capacidade de influenciar a cultura nacional.
Ao levar o Manguebeat para o palco do carnaval, a Grande Rio não apenas celebra um movimento cultural icônico, mas também reforça a importância de reconhecer e valorizar as narrativas que emergem das mais diversas regiões do Brasil. É uma potente mensagem sobre a força da identidade, da criatividade e da resiliência que pulsam em nossa nação, transformando a lama em arte e inspiração para todos, e um lembrete da riqueza cultural que reside em cada canto do país.