A ActionAid lançou recentemente o glossário “Pequenos Grandes Saberes” que reúne a visão de crianças e jovens sobre o racismo ambiental, fenômeno que agrava injustiças sociais em comunidades vulneráveis por todo o país. O projeto, resultado de três anos de trabalho, destaca o impacto dessas desigualdades em seis estados brasileiros, desde a falta de saneamento até o acesso desigual a recursos básicos. O Resumo explica e descomplica para você.
Como crianças e jovens definem o racismo ambiental
O racismo ambiental refere-se ao conjunto de injustiças sociais e ambientais que geram consequências mais severas para determinadas etnias e populações vulneráveis. A publicação “Pequenos Grandes Saberes: Um Glossário Climático pelo Olhar de Crianças e Adolescentes”, desenvolvida pela ActionAid em parceria com diversas organizações, traz a perspectiva de crianças e adolescentes de sete a 17 anos que vivenciam essas realidades.
Os relatos e ilustrações, frutos de um processo que durou três anos, abordam os efeitos do calor extremo, alagamentos, falta de saneamento básico e outras formas de injustiça socioambiental. Conforme explicado por Carolina Silva, especialista em Educação e Infâncias e responsável pela metodologia do projeto, a iniciativa surgiu da percepção das crianças de que “algo estava errado nos seus territórios, mas ainda não tinham palavras para nomear essas injustiças”.
O glossário apresenta o personagem Akin, que aprende sobre o mundo através das descrições dos jovens. Termos como “Agrotóxico” são entendidos como “uma coisa ruim”, enquanto “Ação Comunitária” se relaciona ao “cuidado, a cestas básicas e vacinas”. A “Água” é descrita como um recurso “que nem sempre está disponível e que, às vezes, vem com cor de barro”.
No tópico “Energia”, os jovens apontam a desigualdade no restabelecimento da luz: “a luz demora pra voltar porque somos pobres, na zona sul eles têm dinheiro e não demora”. Já o termo “Inclusão” se traduz em “aceitar todos na brincadeira” ou “ter uma comida legal e boa”.
O que isso muda na prática: Essa iniciativa oferece uma plataforma vital para que as vozes mais afetadas pelo racismo ambiental sejam ouvidas, transformando suas experiências em ferramentas de conscientização e educação, essenciais para o reconhecimento e combate às desigualdades estruturais.
Entidades e comunidades envolvidas no projeto
Ao todo, cerca de 350 moradores de seis estados brasileiros contribuíram para o glossário. O trabalho incluiu jovens de diversas localidades, evidenciando a abrangência do racismo ambiental no país:
– Complexo da Maré, Rio de Janeiro; – Heliópolis, São Paulo; – Território indígena Xakriabá, Minas Gerais; – Comunidades rurais do interior de Pernambuco; – Territórios quilombolas na Bahia; – Comunidades de quebradeiras de coco babaçu no Tocantins.
A construção do glossário contou com o suporte de organizações parceiras da ActionAid, como Redes da Maré, UNAS Heliópolis, Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA-NM), Giral, Conselho Pastoral de Pescadores e Pescadoras (CPP) e Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB).
O que isso muda na prática: A vasta colaboração entre organizações e a amplitude geográfica do projeto demonstram a capilaridade do problema do racismo ambiental e reforçam a importância da união para dar visibilidade a realidades que, muitas vezes, permanecem ignoradas.
Impacto e replicabilidade da iniciativa
A metodologia desenvolvida pela ActionAid e suas organizações parceiras foi documentada e disponibilizada na edição do glossário. O objetivo é que ela possa ser replicada em escolas, projetos sociais e na formulação de políticas públicas por todo o país.
Ana Paula Brandão, diretora Programática da ActionAid Brasil, ressalta a importância de levar a “educação ecológica ou ambiental, a partir da perspectiva antirracista, como uma contribuição para a educação brasileira”. Ela afirma que “ouvir o que as crianças e adolescentes têm a dizer sobre sua própria realidade é indispensável, e o glossário é um potente instrumento educativo de mobilização e sensibilização para esse debate”.
O que isso muda na prática: Ao oferecer uma metodologia de fácil replicação, o projeto “Pequenos Grandes Saberes” tem o potencial de expandir a educação ambiental antirracista para um público muito mais amplo, influenciando futuras gerações e fomentando debates cruciais em políticas públicas.