A exposição inédita ‘Coexistir Coabitar’, aberta no Rio de Janeiro a partir desta semana, reúne obras de ex-detentos do sistema prisional e de seus familiares, provocando reflexões urgentes. A iniciativa usa a arte como ferramenta crucial de ressocialização e saúde mental, trazendo à tona um tema de impacto social e político relevante para todo o país. O Resumo explica e descomplica para você.
Arte como Espelho: A Trajetória de Wallace Costa
Um dos destaques da mostra é o artista e biomédico Wallace Costa, de 29 anos, residente no bairro de Irajá, zona norte do Rio de Janeiro. Sua obra, ‘Cadeias de Vidro’, é composta por três telas em resina que revisitam a trajetória de encarceramento de seu pai e as profundas marcas deixadas na família.
Detalhes da experiência de Wallace Costa:
– O pai de Wallace foi detido múltiplas vezes, cumprindo uma pena de 11 anos em uma das prisões e voltando a ser preso por um ano em 2019.
– A obra de Wallace incorpora a réplica de um jornal que descreveu seu pai como instigador de uma rebelião em abril de 2004.
– Fragmentos de vidro, adesivos e canudos encapsulados em resina simbolizam a fragmentação e anulação do indivíduo encarcerado e o impacto na saúde mental do egresso.
O que isso muda na prática: A obra de Wallace Costa joga luz sobre as sequelas do encarceramento não apenas nos indivíduos, mas também em suas famílias, reforçando a urgência de políticas públicas mais eficazes para a ressocialização, o apoio psicológico e a prevenção da reincidência, impactando diretamente a segurança pública e os custos sociais e financeiros do sistema prisional.
Vidas por Trás das Grades: O Relato de Larissa Rolando
Larissa Rolando, uma mulher trans de 20 anos, moradora de Bangu, zona oeste, transformou sua experiência de detenção entre fevereiro e maio de 2023 em arte. Presa com documentos já retificados, ela enfrentou o temor de ser alocada em uma unidade masculina, mas relata ter recebido tratamento respeitoso dos homens na prisão.
Apesar do respeito, Larissa teve que lidar com as condições precárias de higiene e alimentação no presídio. Sua vivência no sistema prisional a levou a uma profunda reflexão pessoal e a uma mudança de perspectiva, culminando na criação de sua escultura.
Sobre a obra de Larissa Rolando:
– Escultura: ‘Coração Empalado’, com veias de onde saem CDs, simbolizando a música como constante em sua vida, desde a infância e sua transição de gênero.
O que isso muda na prática: A história de Larissa evidencia a necessidade de protocolos claros e humanizados para pessoas trans no sistema prisional, além de expor as condições precárias que impactam a dignidade humana. Sua resiliência inspira a busca por justiça social e melhores condições que, na prática, podem reduzir a reincidência, promover a inclusão social e garantir os direitos de todos os cidadãos, independentemente de sua identidade.
A Exposição 'Coexistir Coabitar' e seu Impacto
A mostra reúne obras de 27 artistas e é resultado de uma residência artística no Museu da Vida Fiocruz, um importante centro de ciência e saúde no Rio de Janeiro. O processo articulou arte, saúde e justiça social, utilizando a criação como ferramenta de escuta e reconstrução de trajetórias.
O curador Jean Carlos Azuos ressalta que as obras partem das experiências reais dos participantes, transformando-as em matéria e linguagem, atravessadas por arte, justiça social e saúde ampliada. Além da visitação, a programação inclui atividades educativas, como visitas mediadas, oficinas e rodas de conversa, ampliando o diálogo com o público.
Informações para visitação:
– Exposição: Coexistir Coabitar
– Local: Largo das Artes – Rua Luís de Camões, 02, Centro, Rio de Janeiro (1º andar)
– Visitação: Até 25 de abril de 2026
– Horário: Terça a sábado, das 10h às 17h
– Entrada: Gratuita