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Como o tênis mais popular do Brasil simplesmente sumiu

Por Élcio Jardim
16 de janeiro de 2026
em Curiosidades
Como o tênis mais popular do Brasil simplesmente sumiu

Kichute

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Ele era preto, simples, feito de lona e com um solado cheio de cravos de borracha. Não era bonito, nem tecnológico, mas estava em todo lugar. Nas escolas, nas ruas, nos campinhos de terra e até nos recreios mais disputados.
Durante anos, esse tênis foi praticamente um uniforme informal da infância brasileira.

Estamos falando do Kichute — um calçado que vendeu mais de 9 milhões de pares em apenas um ano e depois simplesmente desapareceu das prateleiras.


Mais que um tênis: um símbolo de geração

Quem cresceu entre as décadas de 1970 e 1980 dificilmente esquece o Kichute. Ele servia para tudo:

  • Ir à escola
  • Brincar na rua
  • Jogar bola na quadra ou no campo
  • Atravessar a infância inteira com um único par

Em algumas cidades, o sucesso foi tão grande que escolas chegaram a proibir o uso do Kichute, justamente porque os alunos não conseguiam resistir a jogar futebol durante o recreio.


A origem do fenômeno

O Kichute foi lançado em 1970 pela Alpargatas, uma das empresas mais tradicionais do Brasil, fundada em 1907 e também responsável pela criação das Havaianas.

A ideia era simples e genial:
misturar tênis + chuteira, criando um calçado resistente, barato e adaptado à realidade brasileira.

Feito de lona grossa e solado de borracha com cravos, o Kichute se encaixava perfeitamente em um país onde:

  • Futebol era paixão nacional
  • Crianças brincavam na rua
  • Poucas famílias tinham acesso a produtos importados

Um sucesso que virou fenômeno nacional

No auge, o Kichute atingiu números impressionantes:

  • 9 milhões de pares vendidos por ano
  • Cerca de 10% da população brasileira da época
  • Presença massiva em escolas públicas e particulares

Campanhas publicitárias com ídolos como Zico ajudaram a transformar o tênis em um verdadeiro objeto de desejo.

Além disso, o Kichute era mais barato que chuteiras tradicionais e tênis importados, tornando-se uma solução econômica para milhões de famílias durante os anos da ditadura militar.


Quando o mercado mudou — e o Kichute ficou para trás

O problema começou nos anos 1990.

Com a abertura econômica do Brasil, o mercado foi inundado por marcas internacionais como Nike, Adidas e Reebok. O consumidor passou a valorizar:

  • Design
  • Tecnologia
  • Status de marca

O Kichute, funcional e simples, passou a ser visto como ultrapassado.

Em 1996, a Alpargatas decidiu encerrar a produção do Kichute, concentrando seus investimentos em marcas mais rentáveis e com apelo global, como Havaianas, Topper e Rainha.


Tentativas de volta e o peso da nostalgia

Em 2005, a Vulcabras tentou relançar o Kichute apostando no fator nostalgia.
O retorno gerou curiosidade, mas não foi suficiente para recolocar o tênis no cotidiano das novas gerações.

O mundo havia mudado:

  • O futebol saiu da rua e foi para a tela
  • A infância se tornou mais digital
  • O consumo passou a ser guiado por marca e imagem

🎥 O vídeo que explica por que o Kichute sumiu

Para quem quer entender em detalhes como um dos maiores ícones da infância brasileira desapareceu do mercado, o vídeo abaixo resume essa história com dados e contexto histórico:


O que a história do Kichute ensina até hoje

O Kichute não morreu por falta de popularidade.
Ele sumiu porque o mundo mudou mais rápido do que a marca conseguiu acompanhar.

A história deixa uma lição clara:

Nem todo sucesso resiste quando o comportamento do consumidor muda.

Hoje, o Kichute vive mais na memória afetiva do que nas vitrines — como um símbolo de uma infância mais simples, criativa e vivida na rua.

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