O Carnaval, para além da folia, carrega múltiplos significados que impactam o comportamento humano e os laços sociais no Brasil, conforme a psicóloga e teóloga Ana Beatriz Dias da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).
A especialista destacou em entrevista à Agência Brasil, neste período de celebrações, a importância da festa para a saúde mental e o senso de pertencimento comunitário.
O Resumo explica e descomplica para você.
Carnaval: Uma Miríade de Expressões Culturais
“Não existe só um carnaval. O nome deveria ser carnavais”, afirma a professora Ana Beatriz Dias, especialista em comportamento humano da Escola Politécnica da PUC-PR.
A pluralidade da festa no Brasil abrange desde os desfiles no Sambódromo, no Rio de Janeiro, até manifestações regionais únicas:
– Sambódromo (Rio de Janeiro): Grandes desfiles e shows das escolas de samba.
– Nordeste: Bonecos gigantes de Olinda, em Pernambuco, e maracatus.
– Pará: Formatos próprios de celebração com forte influência local.
– Rio Grande do Sul: A “carreada”, que marca o final da engorda do gado antes do inverno e precede o período de exportações, integrando a festa a ciclos produtivos.
O que isso muda na prática: Essa diversidade permite que cada brasileiro encontre uma forma de vivenciar a festa, fortalecendo a identidade regional e proporcionando diferentes válvulas de escape para as tensões cotidianas, adaptando a celebração às suas raízes culturais e sociais.
O Desfile: Da Antiguidade ao Cordão Carnavalesco
O ato de desfilar possui raízes históricas profundas, remontando à antiguidade, conforme Ana Beatriz Dias. Historicamente, desfilar pela cidade com estandartes e faixas representava vitórias e alegrias populares.
A conexão com ritos religiosos é notável, com as procissões católicas, que levam imagens, crucifixos e velas, servindo de modelo. Em muitas cidades antigas, essa tradição persiste, inclusive com música.
A evolução para o Carnaval transformou esses ritos:
– Blocos, maracatus, cordões e vários grupos carnavalescos adaptaram as procissões.
– Elementos como instrumentistas, andores (agora alegorias) e estandartes de paróquias, bairros, times ou confrarias foram mantidos.
O que isso muda na prática: Entender a origem dos desfiles revela a profundidade cultural do Carnaval, mostrando como ritos antigos de celebração e identidade coletiva foram secularizados, transformando-se em uma expressão de liberdade e pertencimento que transcende o religioso, marcando a cultura nacional.
Carnaval e Espiritualidade: Entre a Liberdade e a Quaresma
Para Ana Beatriz Dias, o Carnaval hoje pode simbolizar o início do ano ou uma reflexão sobre a espiritualidade pessoal. O Brasil, um Estado laico, possui uma rica diversidade religiosa, influenciando como a festa é percebida.
Essa celebração é vista de formas distintas por diferentes grupos:
– Jovens: Buscam extravasar e celebrar a liberdade de expressão, incluindo a sexual.
– Católicos: Marcam o último momento para comer carne antes da Quaresma, um período de purificação, jejum e boas práticas. O Carnaval é visto como um tempo para “extravasar” antes do início do sofrimento de Jesus até o Calvário.
O que isso muda na prática: O Carnaval não é apenas um período de festa, mas também um marco cultural e religioso que orienta diferentes comunidades, oferecendo um espaço para expressão da individualidade e fé antes de um período de introspecção para muitos fiéis.
A Celebração da Vida e o Fortalecimento de Vínculos Sociais
O Carnaval intensifica emoções e fortalece o vínculo social, explica Ana Beatriz Dias, que aponta benefícios emocionais e sociais significativos.
Entre os impactos diretos, a festa:
– Renova o pertencimento a grupos e bairros, promovendo a coesão social.
– Reduz o sentimento de isolamento, integrando indivíduos à comunidade.
– Funciona como um ritual de descarga de alegria e reorganização simbólica, permitindo um “escape” temporário da realidade para organizar tensões sociais.
A cultura carnavalesca, para a especialista, reflete a saúde de uma sociedade, abordando aspectos como a saúde do corpo e a saúde mental. É um “jogo identitário” e uma expressão cultural multifacetada.
O que isso muda na prática: Ao participar do Carnaval, o leitor não apenas se diverte, mas engaja-se em um ritual coletivo que combate o isolamento, reafirma sua identidade social e cultural, e contribui para a saúde mental da comunidade, proporcionando um respiro essencial das rotinas e dos problemas cotidianos.