Era fim de tarde no Rio de Janeiro. O sol se despedia por trás dos morros, refletindo na água da Lagoa Rodrigo de Freitas, enquanto luzes começavam a se acender à distância. O som metálico dos brinquedos se misturava às risadas, à música alta e ao cheiro de pipoca e algodão-doce.
Ali funcionava o Tivoli Park — um lugar que, por mais de duas décadas, foi sinônimo de diversão, juventude e sonho para gerações de cariocas. Mas por trás do brilho, o fim já estava em movimento.
Um parque inspirado na Europa, com alma carioca
Inaugurado em 1972, o Tivoli Park da Lagoa foi criado pelo empresário circense Orlando Orfei, italiano radicado no Brasil. O nome homenageava o famoso Tivoli, de Copenhague, aberto em 1843 e considerado o segundo parque de diversões mais antigo do mundo — em funcionamento até hoje.
Naquele período, o Rio não tinha shoppings centers modernos, videogames ou internet. A diversão acontecia fora de casa, e o Tivoli surgiu como um parque sem concorrentes diretos, em localização privilegiada, às margens da Lagoa.
Os anos de ouro: quando o Tivoli virou símbolo cultural
Sem dúvida, os anos 1980 foram o auge do parque.
O Tivoli Park se tornou:
- Ponto de encontro de jovens
- Programa familiar de fim de semana
- Espaço de socialização e lazer urbano
Com cerca de 30 brinquedos, o parque recebia mais de 2.300 pessoas em um domingo comum, atraindo visitantes de todo o Grande Rio e até da Região Serrana.
A adoção do sistema de passaporte, que permitia brincar à vontade, impulsionou ainda mais o público. Festivais sazonais, como o famoso “Festival do Sorvetão”, marcaram época e reforçaram o caráter popular do espaço.
Acidentes, denúncias e o início da decadência
A partir do fim dos anos 1980, a imagem do Tivoli começou a se desgastar. Alguns acidentes graves chamaram a atenção das autoridades e da imprensa.
Em 1986, uma criança caiu do brinquedo Expresso do Amor e foi internada em estado grave.
Em 1991, duas pessoas caíram da atração Gaiola das Loucas após falha na porta de segurança, levando à interdição temporária do parque.
Esses episódios abalaram a confiança do público e aumentaram a fiscalização.
O crime que selou o destino do Tivoli Park
O episódio mais grave ocorreu em 13 de março de 1994. Uma criança foi vítima de violência dentro de um brinquedo fechado, conhecido como Castelo das Bruxas. O caso teve grande repercussão nacional e escancarou falhas graves de segurança no parque.
Após o crime, o então prefeito do Rio, Cesar Maia, determinou o fechamento do Tivoli Park, citando não apenas o episódio, mas também:
- Falta de segurança adequada
- Ocupação de área pública nobre
- Contrato vencido de concessão
A tragédia representou um ponto de ruptura definitivo na história do parque.
O fechamento e o vazio deixado na cidade
Depois de resistir por algum tempo a ordens de despejo na Justiça, o Tivoli Park fechou definitivamente em janeiro de 1996, encerrando um ciclo de 24 anos de funcionamento.
O espaço passou por diferentes usos até ser transformado no atual Parque dos Patins, área pública voltada ao lazer, sem brinquedos mecânicos.
Tentativas de retorno — e o fim definitivo
Em 2020, foi anunciada uma tentativa de retorno do Tivoli Park em versão renovada, na Barra da Tijuca. O projeto, no entanto, não se sustentou e acabou encerrado após poucos anos, em meio a problemas fundiários e falta de viabilidade.
Hoje, não há previsão de reabertura.
Um ícone que ainda vive na memória carioca
O Tivoli Park não foi apenas um parque de diversões.
Foi:
- Símbolo de uma época
- Reflexo de uma cidade mais aberta ao lazer coletivo
- Parte da memória afetiva do Rio
Sua ausência ajuda a explicar por que, até hoje, tantos cariocas sentem falta de um grande parque de diversões permanente na cidade.
O Tivoli saiu do mapa urbano — mas permanece vivo na lembrança de quem viveu seus dias de glória.






