Ele era preto, simples, feito de lona e com um solado cheio de cravos de borracha. Não era bonito, nem tecnológico, mas estava em todo lugar. Nas escolas, nas ruas, nos campinhos de terra e até nos recreios mais disputados.
Durante anos, esse tênis foi praticamente um uniforme informal da infância brasileira.
Estamos falando do Kichute — um calçado que vendeu mais de 9 milhões de pares em apenas um ano e depois simplesmente desapareceu das prateleiras.
Mais que um tênis: um símbolo de geração
Quem cresceu entre as décadas de 1970 e 1980 dificilmente esquece o Kichute. Ele servia para tudo:
- Ir à escola
- Brincar na rua
- Jogar bola na quadra ou no campo
- Atravessar a infância inteira com um único par
Em algumas cidades, o sucesso foi tão grande que escolas chegaram a proibir o uso do Kichute, justamente porque os alunos não conseguiam resistir a jogar futebol durante o recreio.
A origem do fenômeno
O Kichute foi lançado em 1970 pela Alpargatas, uma das empresas mais tradicionais do Brasil, fundada em 1907 e também responsável pela criação das Havaianas.
A ideia era simples e genial:
misturar tênis + chuteira, criando um calçado resistente, barato e adaptado à realidade brasileira.
Feito de lona grossa e solado de borracha com cravos, o Kichute se encaixava perfeitamente em um país onde:
- Futebol era paixão nacional
- Crianças brincavam na rua
- Poucas famílias tinham acesso a produtos importados
Um sucesso que virou fenômeno nacional
No auge, o Kichute atingiu números impressionantes:
- 9 milhões de pares vendidos por ano
- Cerca de 10% da população brasileira da época
- Presença massiva em escolas públicas e particulares
Campanhas publicitárias com ídolos como Zico ajudaram a transformar o tênis em um verdadeiro objeto de desejo.
Além disso, o Kichute era mais barato que chuteiras tradicionais e tênis importados, tornando-se uma solução econômica para milhões de famílias durante os anos da ditadura militar.
Quando o mercado mudou — e o Kichute ficou para trás
O problema começou nos anos 1990.
Com a abertura econômica do Brasil, o mercado foi inundado por marcas internacionais como Nike, Adidas e Reebok. O consumidor passou a valorizar:
- Design
- Tecnologia
- Status de marca
O Kichute, funcional e simples, passou a ser visto como ultrapassado.
Em 1996, a Alpargatas decidiu encerrar a produção do Kichute, concentrando seus investimentos em marcas mais rentáveis e com apelo global, como Havaianas, Topper e Rainha.
Tentativas de volta e o peso da nostalgia
Em 2005, a Vulcabras tentou relançar o Kichute apostando no fator nostalgia.
O retorno gerou curiosidade, mas não foi suficiente para recolocar o tênis no cotidiano das novas gerações.
O mundo havia mudado:
- O futebol saiu da rua e foi para a tela
- A infância se tornou mais digital
- O consumo passou a ser guiado por marca e imagem
🎥 O vídeo que explica por que o Kichute sumiu
Para quem quer entender em detalhes como um dos maiores ícones da infância brasileira desapareceu do mercado, o vídeo abaixo resume essa história com dados e contexto histórico:
O que a história do Kichute ensina até hoje
O Kichute não morreu por falta de popularidade.
Ele sumiu porque o mundo mudou mais rápido do que a marca conseguiu acompanhar.
A história deixa uma lição clara:
Nem todo sucesso resiste quando o comportamento do consumidor muda.
Hoje, o Kichute vive mais na memória afetiva do que nas vitrines — como um símbolo de uma infância mais simples, criativa e vivida na rua.







