Rochas plásticas foram encontradas em ninhos de tartarugas na ilha de Trindade, a mais de mil quilômetros da costa do Espírito Santo, conforme estudo publicado neste mês de junho de 2024. A descoberta, que reforça o alerta sobre a poluição marinha no Brasil, revela um novo tipo de contaminação com impacto profundo na fauna e geologia. O Resumo explica e descomplica para você.
Entenda a Formação e Composição das Rochas Plásticas
A identificação inicial do fenômeno no Brasil ocorreu em 2019, pela geóloga Fernanda Avelar Santos, pesquisadora de pós-doutorado da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
As descobertas foram detalhadas na revista científica Marine Pollution Bulletin, com a publicação neste mês de junho de 2024.
As rochas são compostas por materiais geológicos comuns, como rochas vulcânicas e areia, cimentados por plástico, o que caracteriza uma nova forma de poluição marinha.
Análises laboratoriais revelaram a predominância de polietileno e polipropileno, polímeros industriais de baixo custo e alta versatilidade.
A formação ocorre quando resíduos plásticos no lixo marinho são expostos a altas temperaturas, como em processos de queima.
Os estudos mais recentes da Unesp identificaram aditivos e corantes nos fragmentos, substâncias que aumentam a durabilidade do material no ambiente.
A origem do plástico incorporado às rochas é majoritariamente de cordas marítimas de polietileno de alta densidade, empregadas na navegação comercial e pesca industrial.
O que isso muda na prática: Isso demonstra que o lixo marinho não apenas polui visualmente, mas se integra fisicamente ao ambiente natural, formando estruturas que podem persistir por longos períodos e transportar contaminantes, afetando ecossistemas de maneira duradoura.
Rochas Plásticas Contaminam Ninhos de Tartarugas Verdes
A área inicial de ocorrência das rochas plásticas em 2019, que abrangia cerca de 12 metros quadrados, foi reduzida em 45% devido à erosão natural.
O desgaste fragmentou essas estruturas em mesoplásticos e microplásticos, com tamanhos variando entre 1 milímetro e 65 milímetros.
Esses fragmentos foram transportados por correntes e ventos, sendo encontrados tanto em áreas costeiras quanto no interior de ninhos de tartarugas.
Parte do material foi descoberta soterrada a até 10 centímetros de profundidade nos ninhos.
A Ilha de Trindade é um local crucial para a reprodução de tartarugas-verdes, especialmente na Praia das Tartarugas, que é protegida como Monumento Natural (MONA).
O que isso muda na prática: A presença de microplásticos nos ninhos ameaça diretamente a reprodução das tartarugas-verdes, uma espécie em risco, ao expor ovos e filhotes a substâncias tóxicas e alterar o habitat essencial para sua sobrevivência.
O Debate Geológico e o Legado Humano no Planeta
A pesquisadora Fernanda Avelar Santos também investiga a possibilidade de essas formações plásticas se tornarem registros estratigráficos, ou seja, camadas geológicas permanentes que contariam a história da Terra.
Caso se confirme, a existência das rochas plásticas fortalece o argumento em favor do Antropoceno, uma nova época geológica caracterizada pelo impacto irreversível das atividades humanas no planeta.
A classificação oficial do Antropoceno ainda está em discussão pela Comissão Internacional de Estratigrafia, que decidiu em 2024 adiar uma decisão definitiva por aproximadamente uma década.
Desde 2025, Fernanda Santos participa de pesquisas na Western University, no Canadá, em colaboração com a geóloga Patricia Corcoran, pioneira nos estudos dessas formações.
Os experimentos em laboratório simulam o envelhecimento das rochas plásticas sob condições extremas de radiação ultravioleta, calor e umidade, replicando o clima de ilhas oceânicas como Trindade e Fernando de Noronha.
O objetivo é determinar se esses materiais podem resistir ao tempo e se preservar em camadas geológicas profundas da Terra.
O que isso muda na prática: A confirmação de que o plástico pode se tornar um elemento geológico permanente redefiniria nossa compreensão do impacto humano, sublinhando a urgência de repensar o descarte e a produção de resíduos para mitigar um legado ambiental de escala global.